sexta-feira, 6 de março de 2026

CHARLES PÉGUY: SÃO OS PADRES A CAUSA DA DESCRISTIANIZAÇÃO

 




Paolo Cugini

 

Tudo o que Péguy tem a denunciar em relação à Igreja Católica concentra-se na figura dos padres, por vezes chamados de curés, ou clergé, ou simplesmente prêtres. É em Vèronique Dialogue de l’histoire et de l’ame charnelle que encontramos tematizados todos os argumentos de uma acusação que frequentemente atinge tons de pura polêmica.

O padre caminha nos jardins da graça com uma brutalidade espantosa. Nesta terra nobre, nesta terra abençoada, nesta terra de graça [...] eles afundam o calcanhar, fazem torrões. Dir-se-á que estão empenhados nisso. São os operários da hora em que se trabalha mal. Dir-se-á que eles se propõem unicamente a sabotar os jardins eternos. Que eles não têm senão uma preocupação no tempo: a de impedir alguma floração, a floração da santidade, a frutificação dos frutos da santidade. Que eles não têm senão este objetivo na vida, estes rapazes [...] Não se deve dizer que é danoso, deve-se dizer que é espantoso. E quando se pensa que realizam isso desde o início do mundo [...] De uma brutalidade, de uma indiscrição terrível, também e sobretudo para com a graça e (naturalmente com esta) falam sempre de discrição; arrastam sempre os seus pés barrentos (não digo terrenos, não digo terrestres), são como pés de elefantes moles nos jardins do Senhor. Assim, os curas trabalham na demolição do pouco que resta.

Há nos padres uma espécie de cegueira que os leva a crer que Deus trabalha apenas para eles, esquecendo que a situação correta está exatamente nos antípodas: são os padres que devem trabalhar para Deus. Mas eles dirigem aos outros aquilo que, por vocação, é tarefa deles: convidam outros a realizar atos de contrição, enquanto eles próprios não os realizam. Não se pode senão sufocar e dizer: é terrível. E o que há de mais terrível – sustenta Péguy – é que fazem isso desde o início do mundo. Tudo isso serve para introduzir o verdadeiro problema que toca o coração de Péguy, a saber, a descristianização do mundo moderno que é, essencialmente, segundo ele, um problema histórico.

A eternidade abortou no tempo (para aquele tempo); o eterno foi temporariamente suspenso porque os encarregados do poder, os procuradores do poder do eterno, desconheceram, ignoraram, esqueceram, desprezaram o temporal.

A expulsão do eterno do temporal tem a sua manifestação concreta na distinção entre século (mundo laico) e regra (clero). A regra não conseguiu salvar o século porque historicamente ignorou o século. Péguy, neste ponto do discurso, faz notar como na origem as coisas não eram assim. Se, de fato, está fora de dúvida que na origem do cristianismo está Jesus, então deve-se sublinhar que Jesus não era nem secular nem regular. Outra precisão importante é que, sempre na origem:

O século era incontestavelmente o objeto e a regra era a matéria de onde vinha o nutrimento. Originariamente, primitivamente, a vida mística, a operação cristã voltava-se para, consistia não em evitar o mundo, mas em salvar o mundo; não em fugir do século, separar-se, entrincheirar-se, subtrair-se, cortar-se do século, mas, pelo contrário, consistia em nutrir misticamente o século.

Esta separação entre momento místico e momento prático, entre regular e secular, não foi uma simples separação conceitual, mas sobretudo uma dissociação que conduziu historicamente a uma separação de poderes, uma distribuição de funções e uma divisão de trabalho. A união histórica e fundamental entre mística e mundo, entre regra e século, uma vez separada, produziu uma série inumerável de contradições e ambiguidades. A primeira delas é a distinção entre leigo e padre, chegando-se a indicar a vocação do pai de família como a menos empenhada, a menos aventurosa. Na realidade:

É diametralmente o contrário. A vida de família está na outra extremidade da vida da regra. Nenhum homem no mundo está tão empenhado no mundo, na história e no destino do mundo como o homem de família, como o pai de família, tão plenamente, tão carnalmente [...] acredita-se comumente que é o celibatário, o homem sem família, que é um homem de companhia, um aventureiro que corre aventuras. É o pai de família, ao contrário, o homem de família, que é um aventureiro, que corre não apenas aventuras, mas uma só, mas uma grande, mas uma imensa, mas uma total aventura, a aventura mais terrível, mais continuadamente trágica, da qual a própria vida é uma aventura, o próprio tecido da vida, o pão cotidiano. Eis o aventureiro, o verdadeiro, real aventureiro. O pai de família sozinho coloca, joga, arrisca, empenha infinitamente mais no destino do mundo, no século, no destino de todo um povo, no futuro de uma raça. É notório, é considerável, que esta vida de família, tão desacreditada, tão desprezada é considerável que seja esta vida de família, tão mergulhada por todos os lados, empenhada no século, que Jesus tenha escolhido, que a tenha eleito entre todas para vivê-la, que a tenha efetivamente, que a tenha realmente, que a tenha historicamente vivido durante os primeiros trinta anos da sua existência (terrestre).

Deus entrou no mundo através da vida familiar: é uma escolha que deve ser aceita. Escolheu a vida de família porque, aos olhos de Péguy, é a mais comprometida que pode haver no século. Aqui reside o sentido da encarnação de Deus que desceu para salvar o homem, para revelar o sentido do seu caminho. É a este nível que deve ser compreendida a mística e a mecânica da mística que deu origem ao cristianismo.

Nesta linha de reflexão, Péguy observa que, se é verdade que os outros três anos, os últimos três anos da vida de Jesus, tiveram um caráter público, é igualmente verdade que não foram na direção da regra, mas do século. Os primeiros três anos da Igreja foram, portanto, anos seculares, “secularmente místicos, historicamente místicos, voltados para o século e para a história”. A mística de Jesus não é a mística da regra, mas da carpintaria.

O erro histórico cometido pelos padres situa-se a este nível, que é simultaneamente histórico e místico. A separação entre regra e século, a incompreensão do mistério da encarnação de Deus que vem ao mundo para salvar o homem e o mundo, produziu dois tipos de padres: os padres leigos que negam o eterno do temporal e os padres eclesiásticos que negam o temporal do eterno. Para Péguy, ambos os tipos de padres, frutos maduros do mundo moderno, não podem ser considerados cristãos, pois traíram a mística originária do cristianismo. Assim, temos alguns padres que caem no mais baixo materialismo e outros que vivem no mais vago espiritualismo. A grande maioria dos padres pertence, segundo Péguy, à primeira categoria, ou seja, àqueles “atolados no século e nas tentações do século até à garganta e acima da cabeça”. Os mais perigosos, porém, são aqueles que negam a temporalidade, os puros: eis a mais grave, a mais infinitamente grave tentação das grandes almas. Os padres leigos e os padres clericais são a prova tangível de que a ruptura entre o eterno e o temporal foi sancionada. Não há mais o compromisso do temporal no eterno e do eterno no temporal.

Os padres não acreditam mais em nada. É a frase que Péguy afirma ser a fórmula corrente do seu tempo. Infelizmente, porém, não é uma simples fórmula, mas, salvo casos esporádicos, corresponde à realidade. Para que o padre volte a ser ministro de Deus, é preciso rezar por ele.
(Os padres) foram instituídos para rezar pelos pecados do mundo, é um fundamento, uma parte essencial, capital, da sua instituição; foram fundados para rezar pelos pecados do mundo, e hoje, por esta inversão, temos a impressão de que é o mundo que precisará rezar por eles.

 O texto completo do artigo (em italiano) se encontra aqui:

https://www.academia.edu/40075605/P%C3%89GUY_E_LA_SCRISTIANIZZAZIONE_DEL_MONDO_MODERNO

7 comentários:

  1. Fazendo parte do mundo, estarei sempre rezando por ti. Um abraço...

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  2. O texto nos trás uma reflexão atravéz do pensamento de Péguy.
    O padre existe para servir, não para mandar.
    Quando um sacerdote age com dureza, exige dos outros o que ele mesmo não vive, ou se distancia da vida real das pessoas, ele deixa de cumprir sua missão. Em vez de ajudar as pessoas a crescerem na fé, acaba afastando-as.
    Péguy faz com quem compreendamos que, também lembra que Jesus não viveu isolado do mundo, mas trabalhou, teve família, conviveu com pessoas comuns. Por isso, a vida do dia a dia, de como criar filhos, trabalhar, cuidar da casa, também tem valor sagrado.
    A frase mais forte do texto que nos apresenta é que os padres em si, existem para rezar pelo mundo, mas o mundo é que acabou tendo que rezar por eles. É uma crítica dura que Péguy coloca, mas feita com esperança, um convite para que os sacerdotes voltem às origens e sejam, de verdade, servidores humildes de Deus e das pessoas.
    Que sejam sacerdotes que trabalham e acolhem a todos.

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  3. Hoje em dia não vemos mas um tipo de encarnação são tipos de de pessoas que não se importam mais com a realidade são operários da obra que trabalham para eles nos padres a um tipo de cegueira eles dirigem mais os outros e muito terrível e complicado o que eles fazem os encarregados do poder ignoram expulsam tem a manifestação dele os platónico dizem que a fulga do mundo e platonismo que o mundo cria divisão de trabalho a vida a família estão numa regra o celebrativo que homem cria o aventureiro que corre aventura padre não pode ser cristão que caem no materialismo na tentação ambição os padres não acreditam mais em nada nem neles mesmos,cara preguiçoso que não faz nada os padres no tempo de hoje tinha que entra na real e selecionar pessoas que estão adequada para essa função ,o seminarista já olha o que já deveria ser olha o presente já falei com meu Bispo na cabeça já tem essa ilusão, depois conhecer uma pessoa já era acabou a ilusão,na liturgia existe padre que que fazer as coisas do jeito dele,os jovens de hoje vivem injaulado o povo não faz a experiência e que ter controle, pessoas estão cheias de conceitos as pessoas no Brasil não conhece a realidade a igreja vive em liberdade a realidade inquieta o homem moderno produz uma cultura que se acha como no caso de seminarista que se acham padres querem ultrapassar os limites a realidade e uma desordem e que nem tsunami terremoto vulcão um teatro a igreja católica e responsável o Padre e a destruição vou grande o responsável.

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  4. O texto apresenta uma crítica forte de Charles Péguy ao modo como parte do clero viveu sua missão ao longo da história. Para ele, muitos padres acabaram se afastando da essência do cristianismo ao separar a vida espiritual da realidade concreta do mundo. Em vez de nutrir a santidade e conduzir o povo à graça, a religião corre o risco de se tornar apenas formal e distante da vida.

    Péguy recorda que o cristianismo nasce da encarnação de Jesus Cristo, que viveu inserido na vida comum e na realidade humana. Por isso, a fé não deveria fugir do mundo, mas transformá-lo. Assim, sua crítica é, na verdade, um chamado para que a Igreja recupere a união entre o eterno (Deus) e o temporal (a história e a vida concreta das pessoas).

    Além disso, o texto destaca que a verdadeira mística cristã não consiste em afastar-se do mundo, mas em viver a fé dentro da realidade humana. Ao valorizar a vida familiar e o compromisso cotidiano, Péguy mostra que a experiência cristã se realiza na história concreta das pessoas. Assim, sua reflexão é também um apelo para que a Igreja reencontre a autenticidade de sua missão, testemunhando no mundo a presença viva de Deus revelada em Jesus Cristo.

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  5. Nos chama atenção a provocação feita a partir do pensamento de Charles Péguy. A ideia de que os próprios padres poderiam contribuir, de alguma forma, para a descristianização nos faz parar e pensar, não tanto como uma acusação direta, mas como um convite a olhar para dentro da própria Igreja. Às vezes, quando a fé fica muito presa a estruturas, discursos ou costumes repetidos sem vida, corre o risco de não tocar mais o coração das pessoas como antes.
    Ao mesmo tempo, a reflexão também desperta um certo cuidado, a descristianização é um fenômeno muito maior e não pode ser explicada por um único fator, a história mostra que existem muitas influências culturais, sociais e até políticas que contribuíram para isso, por isso, talvez o valor maior dessa provocação não esteja em apontar culpados, mas em provocar um exame de consciência dentro da própria vida da Igreja.
    No fundo, o texto parece nos lembrar de algo simples, mas importante: a fé continua viva quando ela se mantém ligada ao Evangelho e à vida concreta das pessoas. É bastante preocupante quando as referências pelas quais as pessoas tem em vista, são as que mais precisam de oração, acredito que o caminho que é proposto também é de união e de que precisamos uns dos outros e não se esconder atrás de títulos ou méritos. Quando a Igreja consegue testemunhar isso com autenticidade, ela fala mais alto do que qualquer discurso, talvez seja justamente essa a inquietação que o texto desperta em quem o lê.
    Luan Aragão - 5° período de Filosofia

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  6. Uma grande crítica ao comportamento de alguns padres ao longo da história. Não geral, mas percebe-se muitos casos ainda hoje. Segundo Péguy, muitos sacerdotes acabaram se afastando da verdadeira missão cristã. Em vez de servir, alguns passaram a agir como se estivessem acima dos outros, esperando ser servidos e respeitados por sua posição. E dentro das instituições religiosas em geral, percebe-se uma hierarquia onde o maior deve ser servido a todo custo. Assim, acabam esquecendo que o sacerdote deveria trabalhar para Deus e para o povo, e não para si mesmo.

    Observa-se no texto a atitude de certos padres que cobram dos fiéis aquilo que eles mesmos não vivem. Pedem conversão, humildade e oração, mas muitas vezes não praticam essas coisas. Com isso, em vez de ajudar a fé a florescer, acabam prejudicando a vida espiritual das pessoas. A crítica não é contra a Igreja em si, mas contra atitudes que traem o próprio Evangelho.

    Péguy valoriza muito a figura do pai de família, onde por muitos era uma figura desvalorizada em relaçãos aos sacerdotes. Lembra que a vida familiar é uma grande missão e uma grande responsabilidade. O pai e a mãe, que trabalham, educam os filhos e lutam pela vida diária, estão profundamente comprometidos com o mundo e com o futuro da sociedade. Por isso, essa vocação não é menor que a do padre, pelo contrário, é uma verdadeira aventura de fé.

    O maior exemplo disso está no próprio Jesus Cristo. Antes de iniciar sua vida pública, Jesus viveu trinta anos dentro de uma família simples, com Maria e José. Isso mostra que Deus quis entrar no mundo pela vida familiar. Assim, o texto nos faz refletir que a fé cristã não deve se afastar da vida concreta das pessoas, mas estar presente no trabalho, na família e na vida simples do dia a dia.

    "Descobri que são as pequenas coisas, as tarefas diárias de pessoas comuns que mantêm o mal afastado. Simples ações de bondade e amor."
    Gandalf🧙‍♂️

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  7. O texto instiga uma reflexão crítica a partir das ideias de Péguy, de forma tão cirúrgica quanto a presença de seu pensamento nele. Reflitamos: o cristianismo está nas mãos de quem vê a fé como um cargo de escritório ou um teatro de aparências, e ainda essa ideia de que ser "espiritual" é fugir do mundo. O cristão, porém, deve estar atento às manifestações de Deus para trabalhar diante das exigências da realidade. Quando se diz que os padres entram no jardim da graça com "pés de elefante", isso nada mais é do que a delicadeza do mistério contra a brutalidade da burocracia religiosa que, muitas vezes, esquece que Deus escolheu a carne e a história para se manifestar, e não o latim, as vestes clericais, o luxo e a autopromoção acima do Evangelho. Um trecho tão necessário de se enfatizar é a colocação da vocação familiar acima da presbiteral. Ao apresentar o pai de família como o maior aventureiro de todos, revela-se de forma genial quem, de fato, encara os desafios reais da realidade.

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