quinta-feira, 18 de março de 2021

O OLHAR DO OUTRO

 




Paolo Cugini

Existem olhares e olhares. Nem todas as aparências são iguais.

Existem olhares anônimos e outros que te deixam empolgado. Olhares que te levam e outros que te deixam. Olhares que escapam, como chuva nas folhas e olhares que penetram, como chuva na terra ressecada. Há olhares que te magoam e outros que te dão vida. Há olhares que te deixam indiferente e outros que te levam embora.

O olhar do outro é o bálsamo da vida. Sem o olhar do outro não sei quem sou e corro o risco de ser envolvido por ilusões, por ideias sobre mim e não pela realidade. Sem um olhar sincero não me torno o que posso ser. E se esse olhar estiver cheio de amor, posso finalmente me tornar eu mesmo. Por favor, olhe para mim.

Se ninguém olhar para mim, a solidão mata a vida. Se alguém me olha, a vida volta nas veias e provoca a vontade de organizar o futuro, de fazer planos.

Procuro o seu rosto: não me deixe sem o teu olhar.

terça-feira, 16 de março de 2021

POLIEDRO




Paolo Cugini


      Vem do grego: polis, muitos e èdron, rosto, portanto muitos rostos. É, portanto, um sólido geométrico limitado por superfícies poligonais planas. Depois, há os poliedros regulares, feitos de faces iguais, e os poliedros irregulares. É uma figura que exerce um certo encanto porque realça especificidades. É, de fato, da perspectiva da unidade na diversidade. O realce das partes, por outro lado, não é implementado pela esfera que, por sua característica específica, cancela qualquer aresta, pois na esfera tudo deve ser homogêneo. Poliedro e esfera indicam, portanto, formas de compreender a relação entre indivíduos e comunidades, ou entre comunidades diferentes em relação umas às outras.

     Esta figura geométrica é frequentemente citada pelo Papa Francisco para indicar sua visão da Igreja, como uma união de todas as parcialidades que na unidade mantêm a originalidade das singularidades. É exatamente o oposto do que acontece na esfera em que a superfície não apresenta rebarbas. Sempre que a Igreja se impõe aos fiéis sem possibilidade de ouvir ou responder, manifesta a sua intenção de nivelar a relação para que apareça uma uniformidade, que acalma quem está no poder, mas gera tensão e rebeldia nos que estão no poder. Nesta perspectiva, São Paulo, em mais de uma ocasião, expressou o desejo de estabelecer comunidades cristãs no modelo do poliedro, isto é, tentando alcançar a unidade salvaguardando a diversidade. São Paulo estava convencido de que o Espírito Santo é aquele que desperta a diversidade, manifestando às pessoas que o acolhem os carismas específicos que permitem à comunidade cristã existir à imagem de Cristo.

    No nível social e político, o poliedro e a esfera indicam duas formas de entender as relações dentro de uma comunidade, uma nação. Enquanto, de fato, no modelo da esfera o cidadão se anula ou, muitas vezes e de boa vontade, é anulado por medidas autoritárias e violentas, no modelo do poliedro o cidadão mantém sua peculiaridade. O modelo poliedro permite que os cidadãos interajam com a estrutura sociopolítica, mantendo a sua própria autonomia. Percebe-se o estilo multifacetado de governar um país na antiga polis, uma das raras experiências políticas em que os governantes não apenas agiam pelo bem dos cidadãos, mas os envolviam nas decisões a serem tomadas. Enquanto o modelo esférico anula a parte, a singularidade em benefício do todo, o modelo multifacetado valoriza e acredita que cada cidadão é chamado a dar o melhor de si para o bem da comunidade e consegue fazê-lo com precisão porque ele é instado em sua especificidade.

    Eu amo o poliedro e odeio a esfera. Gosto de me envolver e envolver as pessoas nos projetos que estão na minha cabeça. Não gosto quando encontro no meu caminho pessoas com uma mentalidade “esférica”, que asfaltam as vontades dos indivíduos para se imporem. O pior é quando este modelo esférico é visto implementado na Igreja fazendo-se passar pela vontade de Deus, rasgando assim páginas após páginas do Evangelho.

sexta-feira, 5 de março de 2021

NÃO MALTRATE SEUS LIMITES

 



Paolo Cugini

Não é fácil tornar-se adulto no contexto em que vivemos, porque, ao invés de aprender a nos conhecer e aceitarmos, somos constantemente provocados por mensagens que nos convidam a desejar ser outra coisa. Ao deslocar a atenção para além do nosso horizonte, corremos o risco de, por um lado, perder o contacto com a nossa realidade e, sobretudo, massacrar aquela parte de nós que não consegue atingir objectivos que não respeitam a nossa própria identidade. É com os limites que temos de lidar, os nossos limites que, neste contexto, correm o risco de serem considerados um obstáculo. Pelo contrário, são precisamente os nossos limites que nos revelam quem somos, para onde podemos ir, que caminho seguir.

Portanto, se quiser ser você mesmo, se quiser aprender a se aceitar como você é, não maltrate os seus limites, mas considere-os parte integrante da sua personalidade. O perigo de maltratar o limite também pode ocorrer no caminho espiritual quando a pessoa, perdendo de vista seus próprios limites, sacrifica sua própria realidade para atingir seus próprios objetivos, ou os objetivos que a cultura lhe propõe, sem levar em conta e sem escuta de si mesmo, do que constitui a verdade de si mesmo. Sem dúvida, vivemos em um contexto cultural que estimula a ambição, de atingir metas, quase todas de espessura material, de mostrar algo de nós ao mundo, ainda que esse algo pouco corresponda ao que realmente somos. Quantos sofrimentos internos são causados ​​pelo esmagamento constante de nossa consciência que nos grita para parar, para interromper o caminho que nos levará ao fracasso. Quantos subterfúgios aprendemos a usar para não deixar que nossa consciência nos censure, até o dia em que o mundo inteiro cair ruinosamente sobre nós.

Antes de iniciar os caminhos da recuperação da personalidade, indo em busca do tempo perdido, seria mais importante buscar ajuda para discernir as escolhas certas a fazer na vida. Entre os sinais mais significativos que devemos aprender a ouvir estão os nossos limites, que indicam as reais condições de possibilidade da nossa existência, dos caminhos possíveis que podemos seguir. Para aprendermos a considerar o limite como algo positivo, parte de nossa estrutura humana, um indicador importante de nossas reais condições de possibilidade, precisamos aprender a nos ouvir, a dedicar tempo à nossa vida espiritual, a aprender a calar. De vez em quando, decidir ficar à margem para pensar na própria vida, nas suas escolhas, para verificar o caminho percorrido, não é perda de tempo, mas em nosso benefício.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

PERSPECTIVA

 



Paolo Cugini

Querida amiga,

tudo depende da perspectiva em que você olha as coisas: é isso que nos preocupa. Passamos a vida toda nos lamentando pelos supostos erros cometidos, a ponto de fazer com que o sentimento de culpa se transforme em algo tão incômodo, que não podemos mais escondê-lo. Há toda uma dor que vai do interior ao exterior, que também assume formas físicas pelo seu peso. Em vez disso, bastava olhar de outro ponto de vista, perceber que se tratava apenas de um problema de perspectiva, de pontos de vista, de diferentes pontos de vista. Dito assim, parece tão banal que dá origem a um leve sorriso. No entanto, há tantas pessoas que estão doentes, porque foram acostumadas a olhar para certos acontecimentos de suas vidas de um único ponto de vista, um ponto que causa dor, lacerações profundas na alma, a tal ponto que não conseguem resistir tanta dor e, com o tempo, eles se tornam sua dor.

E ao invés, de repente, sem nem pensar nisso, por acaso, só por acaso, nos encontrarmos em outro espaço, percebemos que aquela coisa que consideramos negativa, aquela situação que sempre foi avaliada como terrível, abominável, tão feia de chegar ao ponto de esconde-la até aos nossos olhos, na realidade não era mais do que um erro de perspectiva, quer dizer, minha pequena amiga, uma história mal contada, mal vista. Bastava, aliás, ir a um outro lugar para entender que não se tratava de erro ou, para dizer com palavra de religiosos, de pecado, mas simplesmente de um ponto de vista diferente, de uma diferente, poderíamos dizer, nova maneira de ver as coisas, tão nova de considerar o que antes era considerado negativo, como positivo, algo de que você não precisa se envergonhar, mas como um presente. Até isso! Você viu, querida amiga, quão importante é a perspectiva? Você viu como é importante não ficar parada, mas se mover, buscar novos horizontes, diferentes espaços, novos olhares que possibilitem uma nova visão do mundo, do nosso mundo?

E aí minha amiga, bota a mochila nas costas e vai, em busca da perspectiva que nos faz feliz, que seca nossas lágrimas e nos faz ficar no mundo com toda a riqueza de nossa humanidade, pois não há nada de que precisamos nos envergonhar, senão tantas situações que devemos começar a ver e contemplar de uma nova forma, de uma perspectiva diferente.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

O TUDO NO FRAGMENTO

 



 

Paolo Cugini

 

Não tenha medo do que é pequeno, do que parece menor, porque a grandeza não se identifica com a qualidade.

Não tenha vergonha da humildade do seu lar, porque a beleza está nas pessoas com quem você vive.

Não pense que você está sem sorte, porque a maior sorte está em seu respiro.

Não procure além, aquilo que é perto de você.

Não despreze os fragmentos que encontra na vida, porque em cada um deles está tudo o que procura.

Todo o amor no fragmento de minha casa, minha aldeia, minha família, minha comunidade. Portanto, não faz sentido procurar em outro lugar o que está sob o nariz. Basta prestar um pouco mais de atenção, para perceber que o dom é exatamente onde eu moro.

Vencer, então, a tentação de acreditar que a felicidade está longe de onde vivemos, que devemos buscá-la em outro lugar, enquanto, na realidade, outro lugar é justamente onde vivemos, onde se tecem as relações cotidianas, que exigem tempo, paciência, dedicação.

Todo o amor nas pessoas que você encontra todos os dias.

Todo amor no fragmento de uma flor.

A vida inteira no fragmento de um pardal voador.

Toda a alegria do mundo, no fragmento do solo que você pisa todos os dias.

Toda a alegria de viver está em seu fragmento de quintal.

Então, se você quiser gostar tudo, presta atenção para os fragmentos.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

A FERIDA NÃO É O TUDO

 



     Paolo Cugini


      Já é sinal de uma grande caminhada espiritual e humana poder olhar sem medo para a ferida que arde dentro de nossa alma, sem tentar escondê-la, como costumamos fazer. Então, quando aprendemos a não identificar a ferida com toda a nossa identidade, significa que temos percorrido um longo caminho dentro de nós mesmos. A ferida, na verdade, não é toda a existência, mas um aspecto do caminho. Superar a tentação de deixar que o sangue da ferida nos devaste do medo, requer muita energia espiritual. Precisamos termos um horizonte claro da existência para não nos surpreender com os sentimentos negativos do momento. E é justamente nesses momentos de desespero possível, que o caminho percorrido ou não percorrido emerge com força. E’ necessário tomar tempo para curar a ferida, para deixá-la curar, para permitir que o amor entre onde o medo tomou conta. Tempo e amor sempre andam juntos, porque não amamos realmente se não nos damos o tempo para amar e nos deixarmos amar. E, com o tempo, a ferida se fecha aos poucos, provavelmente deixando uma leve cicatriz, necessária para nos lembrar quem somos e de onde viemos.

A ferida da alma também é um sintoma de vida que nos lembra uma harmonia quebrada. No turbilhão dos acontecimentos da vida cotidiana, às vezes esquecemos de nós mesmos. Um dia, uma ferida nos obriga a parar, a olhar para ela e, quanto mais profunda, mais precisa de cuidados. Benvindas as feridas profundas que nos obrigam a sentar, a chorar de dor, a pensar nas causas, como poderia ter acontecido, enfim, pensar um pouco em nós mesmos. É curando as feridas que descobrimos que o tempo dedicado a nós mesmos não é um luxo que nos permitimos, mas um presente que revigora a nossa existência. E então, lentamente, as lágrimas se transformam em sorrisos, o choro em alegria, a dor em amor. Porque, como Jesus disse, não podemos amar os outros se primeiro não amarmos a nós mesmos. Não podemos nos inclinar sobre as feridas dos outros se não aprendermos a curar as nossas.

Obrigado, Senhor, pelo dom da ferida e da alegria do cuidado, que enche o coração e dá forças para continuar o caminho com maior autoconsciência.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

PERGUNTAS SOBRE O DESAPARECIMENTO DO CRISTIANISMO





Paolo Cugini

 

 

O progressivo desmoronamento do Cristianismo como religião que se estabeleceu e se identificou no Ocidente está sob os olhos de todos. Todo evento de mudança radical não pode ser explicado apenas por um ponto de referência. No nosso caso, há uma série de elementos que vão todos na mesma direção, a saber, o fim de uma era e o início de outra. Sabemos o que vai acabar, mas ainda não temos muitas informações para entender para onde vamos. Certamente, existe um consumismo generalizado que se espalhou nas últimas décadas no mundo ocidental, o que pode nos fazer pensar em uma cultura que é modelada em elementos materiais. Parece que, mesmo neste caso, se confirma uma intuição sobre a evolução histórica das ideias, ou seja, toda era espiritualista é seguida por outra mais material. Foi assim, por exemplo, nos primeiros séculos da filosofia. Na verdade, na época dos grandes sistemas filosóficos do século VI a. C., caracterizado por uma profundidade teórica e contemplativa como platônica ou aristotélica, passamos a uma abordagem geral marcada mais pelo assunto, como o epicurismo ou o estoicismo.

Então, podemos nos perguntar: o que deve a Igreja fazer, nesta época de mudanças, para não perder o contato com a realidade? Que escolhas deve fazer para poder, ainda hoje, proclamar com autenticidade a mensagem de Jesus? De que deve renunciar definitivamente, para dar lugar à novidade que brota da história?