quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

Uma liturgia com os traços da humanidade de Jesus

 




Paolo Cugini


Para compreendermos o significado da liturgia na vida da comunidade cristã buscando nas origens e, de modo especial, olhando para Jesus, para os Evangelhos, percebemos que há um traço marcante em seu modo de se relacionar com o mundo e com as pessoas: sua humanidade. É este aspecto da humanidade de Jesus que deve moldar a celebração litúrgica. Podemos logo afirmar que a lliturgia deveria reproduzir os traços da humanidade de Jesus, pois a partir de sua vinda, encontramos Deus através da humanidade de seu Filho Jesus.

Há um caminho de humanização que a vida cristã deve percorrer. A Gaudium et Spes (GS) recorda-nos que: “Quem segue a Cristo torna-se também mais homem” (GS 4). É na qualidade humana dos fiéis e das comunidades cristãs que a credibilidade da mensagem cristã se manifesta. É a qualidade de vida humana que faz a diferença. O humanismo evangélico, em sua profunda cumplicidade com o humano autêntico, representa o presente e sobretudo o futuro do cristianismo. Na humanidade de Jesus, nos seus gestos humanos encontramos a divindade de Deus. A busca de uma liturgia mais humana não consiste apenas em recordar a dimensão ética da liturgia, nem ainda outra estratégia pastoral. O problema é, de fato, de natureza teológica e, portanto, essencial para que seja uma liturgia cristã e não um mero rito religioso como muitos outros. A nossa liturgia é cristã, se estiver em conformidade com a humanidade de Jesus.

Se o mistério de Deus foi revelado através da humanidade de Jesus, da mesma forma a liturgia deve ser fiel ao modo desta revelação. Até a celebração da revelação de Deus deve ter a forma do Evangelho. O modo de celebrar na liturgia deve conformar-se ao modo como Deus se revelou em Jesus, em sua humanidade. A liturgia é revelação em ação. Precisamente o documento conciliar Sacrosantum Concilium (SC) nos lembra que “Através da liturgia se realiza a obra da nossa redenção” (SC 1). Foram estas ideias que orientaram a reforma do CV II, para reconduzir a liturgia às suas origens, isto é, ao Evangelho. Jesus falava a língua do povo, e não uma língua sagrada. Jesus falou e se fez entender. Ele celebrou a Eucaristia pela primeira vez em torno de uma mesa. Os primeiros discípulos partiram o pão em suas casas. Uma humanidade, a de Jesus, caracterizada por um convívio constante: Jesus sentava-se à mesa com todos e todas. A última ceia é o último de muitos jantares com seus discípulos e discipulas. A centralidade do altar nas nossas igrejas lembra-nos que a comunidade cristã é uma comunidade de mesa, porque Jesus assim quis e, consequentemente, a Eucaristia refere-se à relacionalidade, ao cuidado dos gestos entre as pessoas que dela participam.

A referência de Jesus na Última Ceia não é o contexto sacrificial, mas sim um contexto doméstico, comunitário, uma liturgia conduzida pelo pai de família, num contexto informal e próximo da vida. Jesus queria para sua comunidade uma mesa partilhada em contexto familiar; isto significa que: as formas rituais que o expressam não devem distanciar-se da vida. Por isso, são estranhas as atitudes reverenciais e distanciadas, próprias de um contexto sacrificial e sacro, mas totalmente alheias ao contexto familiar e humano desejado por Jesus. Se retirarmos da liturgia o que é autenticamente humano ao mesmo tempo tiramos o que é autenticamente divino . Na liturgia, devemos encontrar a gramática da vida. Isto também se aplica à linguagem da liturgia. O Vaticano II deu a possibilidade de aceder às línguas faladas precisamente para recuperar o fato primordial de toda relação autêntica: a linguagem. Não há possibilidade de relacionamento sem a possibilidade de compreender o que o outro diz. Jesus falava em aramaico, a língua de seu tempo, através da qual se fazia entender. Jesus não falava uma língua sagrada, mas usava expressões da vida das pessoas; não morava em sacristias ou universidades e usava o vocabulário da vida cotidiana, muito mais do que o religioso. “As multidões ficavam maravilhadas com o seu ensinamento” (Mt 7,28). “Nunca um homem falou assim” (Jo 7,46).

O anúncio do Evangelho, hoje, somente pode realizar-se com base em respostas credíveis à pergunta: “crer ajuda-me a viver”? A relação entre liturgia e vida apresenta-se de uma forma nova, em comparação com a época do Concílio. Hoje exprime-se, pedindo que a celebração seja um lugar vital, para regenerar a vida de cada crente. A liturgia como lugar gerador e regenerador do crente para a vida, fonte de vida comunitária, exige uma atenção constante à reprodução no contexto litúrgico dos traços da humanidade de Jesus. A liturgia, portanto, deveria ser uma continuação dos evangelhos, de tal forma que as pessoas que participam dos ritos se sintam envolvidas pela humanidade de Jesus e o reconheçam presente neles. Nos Evangelhos encontramos declarações que expressam o desejo de as pessoas de encontrar Jesus e que são verdadeiras expressões litúrgicas: “Senhor, ajuda-me!” (Mt 15,25); “Jesus, tenha misericórdia de mim!” (Mc 10,47); “Senhor, o meu servo sofre em casa” (Mt 8,6). Esta liturgia dos Evangelhos fala-nos do homem Jesus, que escuta os pedidos vitais do povo, que caminha com os homens e as mulheres de seu tempo, se deixa tocar, pára para ouvir, acaricia, ri, chora: há tanta humanidade em seus gestos! Por isso, a partir de agora, depois de Jesus, o sagrado não precisa mais ser coberto com os sinais de poder para induzir medo e reverência, mas deve ser despojado, porque o Pai, através do Filho, decidiu colocar uma tenda no meio de nós. É a simplicidade dos gestos humanos que fala da grandeza do amor de Jesus, que encontramos em sua humanidade. Diante da vastidão da mensagem cristã, do hiperativismo da vida paroquial, da complexidade de nossos ritos, de sua redundância barroca, a simplicidade da liturgia dos Evangelhos é impressionante. Retornar aos gestos simples da humanidade de Jesus é a tarefa atual da liturgia na Igreja, tarefa indicada pelo CV II.

Só uma liturgia humana pode celebrar a vida humana, seguindo o caminho traçado por Jesus e, o sofrimento, é o ponto mais alto da humanidade. O critério de verdade na liturgia é assumir o sofrimento: o abandono, a exclusão, a solidão. A tarefa de uma liturgia humana é contribuir para humanizar a realidade. Comunhão, caridade, hospitalidade: a liturgia é um recurso da humanidade. Tal como todos aqueles que se sentiam excluídos da sociedade se dirigiram a Jesus, também hoje todos aqueles que no mundo se sentem excluídos, marginalizados, ridicularizados, discriminados devem se sentir acolhidos na liturgia. É no sinal dos pregos que se vê o amor daquele que o Pai ressuscitou. Da mesma forma, é numa comunidade que coloca os pobres, os crucificados da história no centro das suas liturgias que o mundo pode reconhecer a luz do Ressuscitado. Na Oração Eucarística V lemos: “dai-nos olhos para ver as necessidades e os sofrimentos dos nossos irmãos e irmãs”. A celebração eucarística é o lugar da fraternidade e a Eucaristia é o ensinamento mais elevado da humanidade. Não podemos receber inocentemente o pão da vida sem compartilhá-lo com os necessitados. A nossa fé eucarística chama-nos a viver uma ética eucarística, que nos leva a experimentar uma humanidade mais profunda para com os necessitados. É Cristo quem vem ao nosso encontro na liturgia com os pobres, os migrantes, os excluídos. A Eucaristia é um protesto contra a desigualdade e ela contém uma utopia: não é possível sermos humanos ao celebrá-la e sermos desumanos ao sair da Igreja.


quarta-feira, 1 de janeiro de 2025

CARTA ENCÍCLICA DILEXIT NOS DO SANTO PADRE FRANCISCO

 




SOBRE O AMOR HUMANO E DIVINO DO CORAÇÃO DE JESUS

Síntese: Paolo Cugini


Dado em Roma, junto de São Pedro, a 24 de outubro do ano 2024, décimo segundo do meu Pontificado.


CAPÍTULO I

A IMPORTÂNCIA DO CORAÇÃO

 «Amou-nos», diz São Paulo referindo-se a Cristo (Rm 8, 37), para nos ajudar a descobrir que nada «será capaz de separar-nos» desse amor (Rm 8, 39). Paulo afirmava-o com firme certeza, porque o próprio Cristo tinha garantido aos seus discípulos: «Eu vos amei» (Jo 15, 9.12). Disse também: «Chamei-vos amigos» (Jo 15, 15). O seu coração aberto precede-nos e espera-nos incondicionalmente, sem exigir qualquer pré-requisito para nos amar e oferecer a sua amizade: Ele amou-nos primeiro (cf. 1 Jo 4, 10). Graças a Jesus, «conhecemos o amor que Deus nos tem, pois cremos nele» (1 Jo 4, 16).

O que entendemos quando dizemos “coração”?

No grego clássico profano, o termo kardía designa a parte mais íntima dos seres humanos, dos animais e das plantas. 

 A Bíblia diz que «a Palavra de Deus é viva, eficaz [...] e discerne os sentimentos e as intenções do coração» (Heb 4, 12). Deste modo, fala-nos de um núcleo, o coração, que se esconde por detrás de todas as aparências, e até mesmo de pensamentos superficiais que nos confundem

O coração é igualmente o lugar da sinceridade, onde não se pode enganar ou dissimular.

Regressar ao coração

Neste mundo líquido, é necessário voltar a falar do coração; indicar onde cada pessoa, de qualquer classe e condição, faz a própria síntese; onde os seres concretos encontram a fonte e a raiz de todas as suas outras potências, convicções, paixões e escolhas.

Ao não se dar o devido valor ao coração, desvaloriza-se também o que significa falar a partir do coração, agir com o coração, amadurecer e curar o coração.

É preciso afirmar que temos um coração e que o nosso coração coexiste com outros corações que o ajudam a ser um “tu”.

 É necessário que todas as ações sejam colocadas sob o “controle político” do coração, que a agressividade e os desejos obsessivos sejam acalmados no bem maior que o coração lhes oferece e na força que ele tem contra os males; que a inteligência e a vontade sejam também postas ao seu serviço, sentindo e saboreando as verdades em vez de as querer dominar, como algumas ciências tendem a fazer; que a vontade deseje o bem maior que o coração conhece, e que a imaginação e os sentimentos se deixem também moderar pelo bater do coração.

 Em última análise, poder-se-ia dizer que eu sou o meu coração, porque é ele que me distingue, que me molda na minha identidade espiritual e que me põe em comunhão com as outras pessoas.

O coração que une os fragmentos

 O coração é também capaz de unificar e harmonizar a própria história pessoal, que parece fragmentada em mil pedaços, mas na qual tudo pode adquirir sentido. É isso que o Evangelho exprime no olhar de Maria, que olhava com o coração.

Este núcleo de cada ser humano, o seu centro mais íntimo, não é o núcleo da alma, mas da pessoa inteira na sua identidade única, que é alma e corpo. Tudo está unificado no coração, que pode ser a sede do amor com todas as suas componentes espirituais, psíquicas e também físicas. Em última análise, se aí reina o amor, a pessoa realiza a sua identidade de forma plena e luminosa, porque cada ser humano é criado sobretudo para o amor; é feito nas suas fibras mais profundas para amar e ser amado.

O mundo pode mudar a partir do coração

 Só a partir do coração é que as nossas comunidades serão capazes de unir e pacificar os diferentes intelectos e vontades, para que o Espírito nos possa guiar como uma rede de irmãos, porque a pacificação é também uma tarefa do coração. O Coração de Cristo é êxtase, é saída, é dom, é encontro. N’Ele tornamo-nos capazes de nos relacionarmos uns com os outros de forma saudável e feliz, e de construir neste mundo o Reino de amor e de justiça. O nosso coração unido ao de Cristo é capaz deste milagre social.

 Levar o coração a sério tem consequências sociais.

CAPÍTULO II

GESTOS E PALAVRAS DE AMOR

 O Coração de Cristo, que simboliza o centro pessoal de onde brota o seu amor por nós, é o núcleo vivo do primeiro anúncio. Ali se encontra a origem da nossa fé, a fonte que mantém vivas as convicções cristãs.

Gestos que refletem o coração

 O modo como nos ama é algo que Cristo não quis explicar-nos exaustivamente. Mostra-o nos seus gestos. Observando-O, podemos descobrir como trata cada um de nós, mesmo que nos custe perceber isso. Procuremos, pois, onde a nossa fé pode reconhecê-Lo: no Evangelho.

 Isto se torna evidente quando vemos o modo como age. Está sempre à procura, sempre próximo, sempre aberto ao encontro. Contemplamos isto quando se detém a conversar com a Samaritana, junto do poço onde ela ia buscar água.

O olhar

O Evangelho conta-nos que se aproximou dele um homem rico, cheio de ideais, mas sem forças para mudar de vida. Então «Jesus, fitando nele o olhar, sentiu afeição por ele».

Muitos textos do Evangelho mostram-nos que Jesus está atento às pessoas, às suas preocupações, ao seu sofrimento. Por exemplo: «Contemplando a multidão, encheu-se de compaixão por ela, pois estava cansada e abatida».

 Precisamente porque está atento, é capaz de reconhecer cada boa intenção que temos, cada pequena boa ação que praticamos. O Evangelho diz que «Viu também uma viúva pobre depositar [no cofre do tesouro do templo] duas moedinhas».

As palavras

 Embora nas Escrituras tenhamos a sua Palavra sempre viva e atual, por vezes Jesus fala interiormente e convoca-nos para nos conduzir ao melhor lugar. Esse lugar melhor é o seu próprio Coração. Ele chama-nos para nos introduzir no lugar onde podemos recuperar a força e a paz: «Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, que Eu hei de aliviar-vos» (Mt 11, 28). Por isso, pede aos seus discípulos: «Permanecei em mim» (Jo 15, 4).

As palavras que Jesus pronunciou indicavam que a sua santidade não elimina os sentimentos. Por vezes, mostravam um amor apaixonado, que sofre por nós, se comove, se lamenta e chega, até mesmo, às lágrimas.

CAPÍTULO III

ESTE É O CORAÇÃO QUE TANTO AMOU

A devoção ao Coração de Cristo não é o culto a um órgão separado da Pessoa de Jesus. O que contemplamos e adoramos é a Jesus Cristo por inteiro, o Filho de Deus feito homem, representado numa imagem sua em que se destaca o seu coração. Neste caso, o coração de carne é entendido como imagem ou sinal privilegiado do centro mais íntimo do Filho incarnado e do seu amor ao mesmo tempo divino e humano, porque, mais do que qualquer outro membro do seu corpo, é «o índice natural ou o símbolo da sua imensa caridade».

Adoração a Cristo

É indispensável sublinhar que nos relacionamos com a Pessoa de Cristo, através da amizade e da adoração, atraídos pelo amor representado na imagem do seu Coração. Veneramos essa imagem que O representa, mas a adoração dirige-se apenas a Cristo vivo, na sua divindade e em toda a sua humanidade, para nos deixarmos abraçar pelo seu amor humano e divino.


A veneração da sua imagem

 Convém notar que a imagem de Cristo com o seu coração, ainda que de maneira nenhuma possa ser objeto de adoração, não é uma imagem qualquer, entre muitas outras que poderíamos escolher. Não é algo inventado de modo abstrato ou desenhado por um artista, «não é um símbolo imaginário, é um símbolo real, que representa o centro, a fonte da qual brotou a salvação para a humanidade inteira».

Há uma experiência humana universal que torna esta imagem única.

O coração tem o valor de ser percebido não como um órgão separado, mas como um centro íntimo que gera unidade e, ao mesmo tempo, como expressão da totalidade da pessoa, o que não acontece com outros órgãos do corpo humano. 

Amor sensível

Amor e coração não estão necessariamente unidos, pois num coração humano podem reinar o ódio, a indiferença e o egoísmo. Porém, não atingimos a nossa plena humanidade se não saímos de nós mesmos, tal como não nos tornamos inteiramente nós mesmos se não amamos. Portanto, o centro mais íntimo da nossa pessoa, criado para o amor, só realizará o projeto de Deus enquanto amar. Assim, o símbolo do coração simboliza ao mesmo tempo o amor.

 O Filho eterno de Deus, que infinitamente me transcende, quis amar-me também com um coração humano.

Tríplice amor

Entretanto, não nos detemos só nos seus sentimentos humanos, por mais belos e comoventes que sejam, pois, contemplando o Coração de Cristo reconhecemos como nos seus sentimentos nobres e sadios, na sua ternura, no vibrar do seu afeto humano, se manifesta toda a verdade do seu amor divino e infinito.

Na realidade, há um tríplice amor que está contido e nos deslumbra na imagem do Coração do Senhor. Primeiramente, o amor divino infinito que encontramos em Cristo. Mas, pensamos também na dimensão espiritual da humanidade do Senhor. Desde esse ponto de vista, «o coração de Cristo é símbolo de enérgica caridade, que, infundida em sua alma, constitui o precioso dote da sua vontade humana […]. Finalmente […] é símbolo do seu amor sensível».

Estes três amores não são capacidades separadas, funcionando de forma paralela ou desconexa, mas atuam e exprimem-se em conjunto e num fluxo constante de vida.

 Por isso, entrando no Coração de Cristo, sentimo-nos amados por um coração humano, cheio de afetos e sentimentos como os nossos.

Perspectivas trinitárias

 A devoção ao Coração de Jesus é marcadamente referida a Cristo; é uma contemplação direta de Cristo que convida à união com Ele.

 Se buscamos aprofundar o mistério da ação do Espírito, vemos que Ele geme em nós e diz “Abbá”: «Porque sois filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito do seu Filho, que clama: “Abbá! – Pai!”» 

Expressões recentes do Magistério

 O Coração de Cristo esteve presente na história da espiritualidade cristã de diversas maneiras. Na Bíblia e nos primeiros séculos da Igreja, aparecia sob a figura do lado ferido do Senhor, quer como fonte de graça, quer como apelo a um encontro íntimo de amor. Assim reapareceu constantemente no testemunho de muitos santos até aos nossos tempos. Nos últimos séculos, esta espiritualidade tomou a forma de um verdadeiro culto ao Coração do Senhor.

Aprofundamento e atualidade

 A devoção ao Coração de Cristo é essencial para a nossa vida cristã, na medida em que significa a nossa abertura, cheia de fé e de adoração, ao mistério do amor divino e humano do Senhor, até ao ponto de podermos voltar a afirmar que o Sagrado Coração é um compêndio do Evangelho 

 Perante o Coração de Cristo, é possível voltar à síntese encarnada do Evangelho e viver o que propus há pouco, recordando a amada Santa Teresa do Menino Jesus: «A atitude mais adequada é depositar a confiança do coração fora de nós mesmos, ou seja, na infinita misericórdia de um Deus que ama sem limites e que deu tudo na Cruz de Jesus».

CAPÍTULO IV

AMOR QUE DÁ DE BEBER

 Voltemos à Sagrada Escritura, aos textos inspirados que são o lugar principal onde encontramos a Revelação. Nelas e na Tradição viva da Igreja está contido o que o próprio Senhor nos quis dizer para toda a história. A partir da leitura de textos do Antigo e do Novo Testamento, recolheremos alguns dos efeitos da Palavra no longo caminho espiritual do Povo de Deus.

Sede do amor de Deus

93. A Bíblia mostra que uma abundância de água vivificante foi anunciada ao povo que tinha caminhado pelo deserto e esperava a libertação: «Tirareis água com alegria das fontes da salvação» (Is 12, 3).

Ressonâncias da Palavra na história

 Consideremos alguns dos efeitos que esta Palavra de Deus produziu na história da fé cristã. Vários Padres da Igreja, sobretudo da Ásia Menor, mencionaram a chaga do lado de Jesus como a origem da água do Espírito: a Palavra, a sua graça e os sacramentos que a comunicam. A força dos mártires vive da «fonte celeste de água viva que brota das entranhas de Cristo» 

A difusão da devoção ao Coração de Cristo

 O lado trespassado, onde reside o amor de Cristo, do qual, por sua vez, brota a vida da graça, assumiu gradualmente a forma do coração, sobretudo na vida monástica. Sabemos que, ao longo da história, o culto ao Coração de Cristo não se manifestou de modo igual, e que os aspectos desenvolvidos nos tempos modernos, relacionados com diversas experiências espirituais, não podem ser extrapolados para as formas medievais e muito menos para as formas bíblicas, nas quais podemos vislumbrar as sementes deste culto. No entanto, hoje a Igreja não despreza nenhum dos bens que o Espírito Santo nos deu ao longo dos séculos, sabendo que será sempre possível reconhecer em certos pormenores da devoção um sentido mais claro e pleno, ou compreender e desvendar novos aspectos dela.

 Várias mulheres santas relataram experiências de encontro com Cristo, caracterizado pelo repouso no Coração do Senhor, fonte de vida e de paz interior.

São Francisco de Sales

Nos tempos modernos, destaca-se o contributo de São Francisco de Sales. Ele contemplou muitas vezes o Coração aberto de Cristo, que nos convida a habitar dentro dele numa relação pessoal de amor, na qual se iluminam os mistérios da vida. 

Podemos ver no pensamento deste santo doutor como, face a uma moral rigorista ou a uma religiosidade de mero cumprimento de obrigações, o Coração de Cristo lhe aparece como um apelo à plena confiança na ação misteriosa da sua graça. 

É assim que ele se exprime na sua proposta à baronesa de Chantal: «É para mim bem claro que não permaneceremos mais em nós mesmos [...] habitaremos para sempre no lado trespassado do Salvador, pois sem ele não só não podemos, mas, mesmo que pudéssemos, não quereríamos fazer nada»

Uma nova declaração de amor

 Foi sob a influência salutar da espiritualidade de São Francisco de Sales que tiveram lugar os acontecimentos de Paray-le-Monial, no final do século XVII. Santa Margarida Maria Alacoque relatou importantes aparições entre o fim de dezembro de 1673 e junho de 1675. É fundamental a declaração de amor que se destaca na primeira grande aparição. 

Jesus diz: «O meu divino Coração está tão abrasado de amor para com os homens, e em particular para contigo, que, não podendo já conter em si as chamas da sua ardente caridade, precisa derramá-las por teu meio, e manifestar-se-lhes para os enriquecer de seus preciosos tesouros, que eu te mostro a ti»

São Cláudio de La Colombière

Quando São Cláudio de La Colombière soube das experiências de Santa Margarida, tornou-se imediatamente seu defensor e divulgador. Ele teve um papel especial na compreensão e difusão desta devoção ao Sagrado Coração, mas também na sua interpretação à luz do Evangelho.

São Charles de Foucauld e Santa Teresa do Menino Jesus

São Charles de Foucauld e Santa Teresa do Menino Jesus, sem o pretenderem, reformularam certos elementos da devoção ao Coração de Cristo, ajudando-nos a compreendê-la de uma forma ainda mais fiel ao Evangelho. Vejamos agora como se exprime esta devoção nas suas vidas. No próximo capítulo voltaremos a eles para mostrar a originalidade da dimensão missionária que ambos desenvolveram de modos diferentes.

Iesus Caritas

Em Louye, São Charles de Foucauld fazia visitas ao Santíssimo Sacramento com a sua prima, Madame de Bondy, e um dia ela indicou-lhe uma imagem do Sagrado Coração.

Santa Teresa do Menino Jesus

Tal como São Charles de Foucauld, Santa Teresa do Menino Jesus respirou a enorme devoção que inundava a França no século XIX. Padre Almire Pichon foi o diretor espiritual da sua família e foi considerado um grande apóstolo do Sagrado Coração. 

Uma irmã sua tomou o nome religioso de “Maria do Sagrado Coração”, e o mosteiro em que Santa Teresa entrou era dedicado ao Sagrado Coração. No entanto, a sua devoção assumiu algumas características próprias, que iam além das formas pelas quais se expressava naquela época.

Ressonâncias na Companhia de Jesus

 Vimos como São Cláudio de La Colombière relacionava a experiência espiritual de Santa Margarida com a proposta dos Exercícios Espirituais. Penso que o lugar do Sagrado Coração na história da Companhia de Jesus mereça algumas breves palavras.

A espiritualidade da Companhia de Jesus sempre propôs um «conhecimento interno do Senhor […] para que mais o ame e o siga». Nos seus Exercícios Espirituais, Santo Inácio convida a colocarmo-nos diante do Evangelho que nos diz sobre Jesus: «ferido com a lança o seu lado, manou água e sangue».

Uma longa corrente de vida interior

A devoção ao Coração de Cristo reaparece no caminho espiritual de vários santos muito diferentes entre si e, em cada um deles, esta devoção assume novos aspectos. São Vicente de Paulo, para dar um exemplo, dizia que o que Deus quer é o coração: «Deus pede principalmente o coração, o coração, que é o principal. Por que razão quem não tem bens merece mais do que quem, tendo grandes posses, renuncia a elas? Porque quem não tem nada, vai a Ele com mais afeto; e é isso que Deus quer de modo especial».

 Isto implica aceitar que o próprio coração se una ao de Cristo: «Uma Irmã que faz todo o possível para predispor o seu coração a estar unido ao de Nosso Senhor […] quantas bênçãos não receberá de Deus!»

A devoção da consolação

151. A chaga do lado, de onde brota a água viva, permanece aberta no Ressuscitado. Esta grande ferida causada pela lança, e as chagas da coroa de espinhos que aparecem com frequência nas representações do Sagrado Coração, são inseparáveis desta devoção. Nela contemplamos o amor de Jesus Cristo que foi capaz de se entregar até ao fim. 

O coração do Ressuscitado conserva estes sinais da doação total que implicou um intenso sofrimento por nós. Portanto, de algum modo, é inevitável que o fiel queira responder não só a este grande amor, mas também à dor que Cristo aceitou suportar por causa de tanto amor.

CAPÍTULO V

AMOR POR AMOR

Nas experiências espirituais de Santa Margarida Maria encontramos, junto da declaração ardente do amor de Jesus Cristo, uma ressonância interior que nos chama a dar a vida. Sabermo-nos amados e colocar toda a nossa confiança nesse amor não significa anular as nossas capacidades de doação, não implica renunciar ao desejo irrefreável de dar alguma resposta a partir das nossas pequenas e limitadas capacidades.

Um lamento e um pedido

 A partir da segunda grande manifestação a Santa Margarida, Jesus exprime dor porque o seu grande amor pelos homens «não recebia senão ingratidão e friezas. Isto – disse-me Ele – custa-me muito mais do que tudo quanto sofri na minha Paixão».

Prolongar o seu amor nos irmãos

É preciso voltar à Palavra de Deus para reconhecer que a melhor resposta ao amor do seu Coração é o amor aos irmãos; não há maior gesto que possamos oferecer-lhe para retribuir amor por amor. A Palavra de Deus di-lo com toda a clareza:

«Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes» (Mt 25, 40).

«Toda a Lei se cumpre plenamente nesta única palavra: Ama o teu próximo como a ti mesmo» (Gl 5, 14).

«Nós sabemos que passámos da morte para a vida, porque amamos os irmãos. Quem não ama, permanece na morte» (1 Jo 3, 14).

«Aquele que não ama o seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê» (1 Jo 4, 20).


Algumas ressonâncias na história da espiritualidade

Esta união entre a devoção ao Coração de Jesus e o compromisso com os irmãos atravessa a história da espiritualidade cristã. Vejamos alguns exemplos.

Ser uma fonte para os outros

A partir de Orígenes, vários Padres da Igreja interpretaram o texto de João 7, 38 – «hão de correr do seu coração rios de água viva» – como referindo-se ao próprio fiel, ainda que seja a consequência de ele próprio ter bebido de Cristo. Assim, a união com Cristo não tem apenas o objetivo de saciar a própria sede, mas de se tornar uma fonte de água fresca para os outros. 

Orígenes dizia que Cristo cumpre a sua promessa fazendo brotar em nós correntes de água: «A alma do ser humano, que é imagem de Deus, pode conter em si mesma e produzir de si mesma poços, fontes e rios»

Fraternidade e mística

São Bernardo, ao mesmo tempo que convidava à união com o Coração de Cristo, aproveitava a riqueza desta devoção para propor uma mudança de vida fundada no amor. Ele acreditava que era possível uma transformação da afetividade, escravizada pelos prazeres, que não se liberta pela obediência cega a uma ordem, mas numa resposta à doçura do amor de Cristo. Supera-se o mal com o bem, vence-se o mal com o crescimento do amor: «Ama, pois, o Senhor, teu Deus, com o afeto de um coração pleno e íntegro, ama-o com toda a vigilância e circunspeção da razão, ama-o também com todas as forças, de modo que nem sequer tenhas medo de morrer por seu amor […]. Que o Senhor Jesus seja doce e suave ao teu coração, contra os prazeres carnais malignamente doces, e que a doçura vença a doçura, como um prego expulsa outro prego»

A reparação: construir sobre as ruínas

Tudo isto nos permite compreender, à luz da Palavra de Deus, que sentido devemos dar à “reparação” oferecida ao Coração de Cristo, e o que o Senhor realmente espera que reparemos com a ajuda da sua graça. Muito se discutiu a este respeito, mas São João Paulo II ofereceu uma resposta clara aos cristãos de hoje, a fim de nos guiar para um espírito de reparação mais em sintonia com o Evangelho.

Sentido social da reparação ao Coração de Cristo

São João Paulo II explicou que, entregando-nos em conjunto ao Coração de Cristo, «sobre as ruínas acumuladas pelo ódio e pela violência, poderá ser construída a civilização do amor tão desejada, o Reino do Coração de Cristo»; isto implica certamente que sejamos capazes de «unir o amor filial para com Deus ao amor do próximo»; pois bem, «é esta a verdadeira reparação pedida pelo Coração do Salvador». Junto a Cristo, sobre as ruínas que, com o nosso pecado, deixámos neste mundo, somos chamados a construir uma nova civilização do amor. Isto é reparar conforme o que o Coração de Cristo espera de nós. No meio do desastre deixado pelo mal, o Coração de Cristo quis precisar da nossa colaboração para reconstruir a bondade e a beleza.

Reparar os corações feridos

Por outro lado, uma reparação meramente exterior não é suficiente; nem para o mundo, nem para o Coração de Cristo. Se cada um pensar nos seus próprios pecados e nas consequências para os outros, descobrirá que reparar os danos causados a este mundo implica também o desejo de reparar os corações feridos, onde se produziu o dano mais profundo, a ferida mais dolorosa.

O espírito de reparação «convida-nos a esperar que cada ferida possa ser curada, por mais profunda que seja. A reparação completa parece por vezes impossível, quando se perdem definitivamente bens ou pessoas queridas, ou quando certas situações se tornam irreversíveis. Mas a intenção de reparar e de o fazer concretamente é essencial para o processo de reconciliação e para o regresso da paz ao coração» .

A beleza de pedir perdão

Não bastam as boas intenções; é indispensável um dinamismo interior de desejo, que terá consequências externas. Em suma, «a reparação, para ser cristã, para tocar o coração da pessoa ofendida e não ser um simples ato de justiça comutativa, pressupõe duas atitudes exigentes: reconhecer a culpa e pedir perdão [...] É deste reconhecimento honesto do mal causado ao irmão, e do sentimento profundo e sincero de que o amor foi ferido, que nasce o desejo de reparar».

Fazer o mundo enamorar-se

 A proposta cristã é atrativa quando pode ser vivida e manifestada na sua integralidade: não como um simples refúgio em sentimentos religiosos ou em cultos faustosos. Que culto seria o de Cristo se nos contentássemos com uma relação individual desinteressada em ajudar os outros a sofrer menos e a viver melhor? Poderá agradar ao Coração que tanto amou se nos mantivermos numa experiência religiosa íntima, sem consequências fraternas e sociais? Sejamos honestos e leiamos a Palavra de Deus na sua inteireza. Por isso mesmo dizemos que não se trata sequer de uma promoção social desprovida de significado religioso, que no fundo seria querer para o ser humano menos do que aquilo que Deus lhe quer dar. É por isso que temos de concluir este capítulo recordando a dimensão missionária do nosso amor ao Coração de Cristo.


















domingo, 29 de dezembro de 2024

A CRISE DO DISCURSO. Em busca de uma nova racionalidade

 



Paolo Cugini

Falar de crise do discurso pressupõe que se de pôr certo uma situação cultural na qual o discurso de tipo racional não funciona mais como funcionava antes, ou seja, pelo menos no mundo Ocidental, como veículo unívoco de conteúdos. Importante apreender a não jogar no lixo a água com a criança dentro. Dizer que o discurso é em crise, não quer dizer que precisamos abandonar a razão, o raciocínio, mas sim, avaliar uma maneira de raciocinar. O problema é: de que discurso se trata? Que discurso está em crise? É o discurso Ocidental, que é dedutivo, idealista, que utiliza o raciocínio, mas não o esgota. É neste contexto Ocidental que aconteceu a identificação da razão com a ciência e todas as consequências.

O discurso moderno idealista deixou de fora do debate tudo aquilo que a seu ver não entraria no âmbito do horizonte da razão: religião, sentimentos, valores. São estes elementos que estão emergindo como centro do debate cultural contemporâneo, pós-moderno. A religião está vivendo aquilo que foi chamado de retorno do sagrado, contradizendo a tese dos filósofos da suspeita. A vida sentimental desligadas da valores norteantes está mudando os relacionamentos humanos. A mesma ética, desligada do um centro de referencia racional, está tendo dificuldade a encontrar respostas exaustivas.

Este é um dato de partida que mereceria ser discutido, pois nem todo mundo concorda com isso. O problema da “Crise do discurso” põe em xeque o delicado problema do relacionamento entre pensamento e realidade. Se estamos aqui refletindo sobre a crise do discurso é porque a realidade ao longo dos últimos séculos se rebelou aos próprios intérpretes. A realidade não aceita de ser encurralada dentro um cerca de conceitos já feitos, preestabelecidos. O pensamento forte dedutivo do mundo moderno tentou prender a realidade para dominá-la, mas ela se rebelou. Se o discurso está em crise é porque a maneira de interpretar a realidade típica do mundo moderno falhou, se demonstrou errada, faltosa.

Este dado demonstra outros elementos importantes. A crise do discurso dedutivo desvende a origem das crises políticas da cultura ocidental. O tema em foque nesta altura é a violência e o discurso tipicamente violento de uma cultura forte, que apresenta um discurso único, que pretende ser universal. A violência religiosa tem uma matiz lógica: este é um dado importante. Não é o conteúdo religioso que é violento, mas sim a maneira de interpretá-lo. Quantas pessoas sofreram a violência da Igreja? Quantas guerras foram desencadeadas por motivos religiosos, por interpretações “duras” rígidas, de versículos bíblicos? Mesmo podemos dizer sobre a violência ideológica (Marxismo) dos diferentes totalitarismos que devastaram o Ocidente nos últimos séculos: foram maneiras fortes do discurso racional-dedutivo.

Nem sempre todo o mal vem para destruir. A crise do discurso (dedutivo) além de apresentar toda uma serie de problemas que em parte acabei de mostra, apresenta também novas possibilidades para a cultura Ocidental. Quais são estas possibilidades?

Do ponto de vista filosófico a possibilidade de construir um discurso dialógico que saiba respeitar as diferentes componentes do dialogo (Habermas, Apel). Neste sentido são de extrema relevância as contribuições de Buber, Levianas, Mounier, entre outros.

Do ponto de vista bíblico: mais espaço para uma escuta autentica da Palavra de Deus e uma interpretação mais atualizada (teoria de Vattimo).


sábado, 21 de dezembro de 2024

ASSOCIAÇÃO CULTURAL MORINGA DE TAPIRAMUTA' (BAHIA): UMA HISTÓRIA EXEMPLAR

 





Paolo Cugini


Quase vinte anos se passaram desde que a Associação Moringa, fundada em Miguel Calmon para apoiar a biblioteca, também se instalou em Tapiramutà. 

Moringa é o nome de uma planta que purifica a água além de possuir propriedades antioxidantes que podem ajudar a regular o estresse oxidativo, reduzindo os níveis de açúcar no sangue e protegendo as células do corpo. Quando eu e Gianluca, no início de nossa aventura brasileira, procurávamos um nome para dar à associação cultural que estávamos formando, ao descobrirmos a planta da moringa não tivemos mais dúvidas: a associação se chamará moringa. 

A ideia por trás do projeto moringa era fornecer ferramentas, especialmente aos jovens que conhecemos das classes mais pobres, para poderem construir o seu próprio futuro. O primeiro projeto foi o de uma biblioteca, criada a pedido dos jovens que conhecemos. Em torno do espaço da biblioteca, construído através da reabilitação de um edifício da paróquia de Miguel Calmon, surgiram muitos projetos culturais, como o curso de preparação para o acesso à universidade, a par de outros cursos, alguns realizados em colaboração com a vizinha cidade universitária de Jacobina. Entre os projetos mais significativos destes vintes anos elaborados e levados em frente pala Associação Moringa, foram os projetos de conscientisação política em parceria com o Movimento fé e política (Miguel Calmon e Tapiramutá) e o Movimento Moringa em Pintadas. 

O Movimento Fé e Política de tapiramutá numa ação na cidade de Miguel Calmon


Essa ideia cultural deu frutos diversos nas cidades onde foi plantada. Em Pintadas e Ruy Barbosa, por exemplo, não deu muito certo e foi extinto. O local onde a associação da Moringa até agora trouxe mais frutos foi Tapiramutà. De fato, em torno do projeto da biblioteca, em Tapiramutà, foram desenvolvidos alguns projetos direcionados aos menores de rua, em colaboração com a paróquia e, de modo especial, na pastoral dos adolescentes. 

Uma virada fundamental na Moringa foi a descoberta da organização que repassa recursos do Estado da Bahia para entidades que desenvolvem projetos sociais para as classes mais pobres da sociedade. Ao longo do tempo, este contacto produziu a possibilidade de realização de cursos profissionais de diversas naturezas: pedreiro, eletricista, cabeleireiro, etc. Buscou-se contato com o estado. Este é um ponto importante. De facto, muitas vezes os projetos iniciados em terras de missão pelos missionários italianos, terminavam quando o missionário regressava à sua terra natal, até porque os projetos ativados geralmente dependem de dinheiro vindo de Itália. Com Gianluca, desde o início, tivemos ideias claras, também graças a algumas leituras que esclareceram as nossas ideias. 

Alguns dos tantos cursos de formação política realizados pela Moringa


Li o primeiro durante minha primeira viagem  Milão Salvador: O Banqueiro dos Pobres, de Yunus, ganhador do Prêmio da Paz 2006. Li-o porque uma resenha o indicou como um livro fundamental para os missionários. Yunus ensina como ativar o microcrédito em áreas de pobreza. O dinheiro não é doado, mas deve ser investido para produzir. Trata-se de permitir que as pessoas pobres saiam da pobreza, aprendendo a trabalhar, a produzir e a escapar de uma mentalidade de mendicância.

O segundo livro que nos abriu os olhos também vai nessa direção: A caridade que humilha da economista zambiana Dambisa Moyo. Dambisa afirma que o que destruiu África, reduzindo os africanos à pobreza, foi a ajuda humanitária. Pode parecer um paradoxo, mas não é. Na verdade, Moyo, com dados em mãos, afirma que os milhares de milhões de dólares doados pelas grandes potências e entidades de caridade acabaram nos bolsos de políticos corruptos nos países africanos. Esta ajuda, ao longo do tempo, contribuiu, portanto, para manter no poder políticos corruptos e ditadores inescrupulosos, impedindo os africanos de zelarem pelo seu próprio território. 

Um momento da confraternização deste ano em Tapiramutá


Apenas três anos após a fundação da Associação Moringa, Gianluca deixou não só a gestão, mas a própria associação. Eu o segui logo depois. A ideia desta escolha foi na ordem do que havíamos lido e meditado: deixar o povo brasileiro administrar os projetos criados por suas indicações específicas e, sobretudo, não criar novas formas de dependência colonial. O dinheiro que os amigos italianos ofereciam era sobretudo pra dar o pontapé e nada mais. 

Em Ruy Barbosa e Pintadas a experiência não durou muito. Apesar das aparências e dos muitos projetos realizados, não despertou muito interesse. Em Miguel Calmon a experiência continua ativa, sobretudo ligada à biblioteca. Atualmente está em fase de impasse e precisaria de uma reforma, principalmente no pessoal que administra a experiência.

A experiencia de Tapiramutà é diferente. Nesta cidade quem tem o comando é um grupo de pessoas, quase exclusivamente mulheres, que abraçaram a causa, considerando o projeto não só importante, mas necessário para a sua cidade. Entre estas mulheres há algumas com condições económicas significativas e com uma atitude crítica em relação à classe política. Como disse o dominicano Frei Betto, um dos protagonistas do caminho das comunidades eclesiais brasileiras: a opção preferencial pelos pobres é feita pela classe média e, sem ela, é difícil provocar mudanças radicais. E assim foi em Tapiramutà.



Além de acionarem um contacto com o município para pagar os salários dos responsáveis do projeto, estas mulheres conseguiram envolver muitas pessoas – cerca de oitenta – para apoiar o projeto, inclusive financeiramente. Este grupo de pessoas acompanha os projetos há vinte anos, fechando alguns, ativando outros e desde o início sempre procuramos incluir os vários projetos em colaboração com a pastoral social das paróquias e, consequentemente, aproveitando os seus espaços . A associação, com o contributo dos seus associados, compromete-se a manter a ordem e a renovar os espaços que utiliza. 


Nos últimos dias recebi fotos da festa de confraternização Natalina da associação Moringa presente em Tapiramutà. Muita gente festejando, feliz por contribuir para a realização de um sonho: ajudar os pobres a se levantarem e caminharem com os próprios pés, sem esperar durante toda a vida receber esmolas. Entre os que passaram pela aventura da ACMOR (Associação Cultural Moringa) nos últimos anos estão pedreiros, eletricistas, cabeleireiros, mas também engenheiros, arquitetos, farmacêuticos e até dois médicos. A maior satisfação para mim é que só estive presente no início deste projeto: elas, eles cuidaram do resto. 


terça-feira, 3 de dezembro de 2024

EXPANSÃO

 




 Paulo Cugini


Os astrofísicos nos explicaram que o universo está muito longe de poder ser definido e compreendido com sistemas rígidos e fixos, porque está em movimento contínuo: ele se expande. Após a explosão inicial, segundo a teoria do Big Ben, o universo nunca parou de se expandir. Esta é a natureza da realidade: um movimento constante de expansão que. traduzido em filosofia significa que, quem segue o caminho do desenvolvimento de sistemas rígidos, segue um caminho destinado ao fracasso. O que é rígido, num universo em expansão, quebra. Esta é a triste conclusão da história da narrativa ocidental da realidade. Seu fracasso está, infelizmente, à vista de todos. As repetidas crises do sistema económico são o sintoma de uma interpretação errada, que foi imposta apenas pela força, mas a força não determina a autenticidade de uma verdade. O mesmo se aplica às alterações climáticas em curso, fruto do Antropoceno, daquele mundo criado à imagem e semelhança do homem ocidental que felizmente não é Deus. O que é rígido num universo em movimento se rompe. Esta discussão leva-nos a compreender que a realidade, tal como se manifesta e tal como a ciência nos descreve, não necessita de um pensamento que se deixe guiar pelo instinto de sobrevivência humano, que tende a fixar as coisas, a enrijecê-las para dominá-las. , mas deve ir exatamente na direção oposta. É o caminho da escuta que a energia do universo nos sugere. 

Caminhos de escuta, que se tornam caminhos de descoberta do desconhecido, daquilo que só podemos aprender. Nesta viagem descobrimos povos indígenas com uma visão de mundo oposta à ocidental. Se, de fato, desde o início do desenvolvimento do pensamento lógico-filosófico, o homem sempre se considerou no centro do mundo fechado, separado do resto, que considera como à sua disposição, a perspectiva da cultura indígena em que o homem e mulher sentem-se parte do cosmos. Diferentes visões de mundo que produzem diferentes caminhos, diferentes formas de estar no mundo. Quando nos sentimos parte de algo nós protegemos, cuidamos, nos interessamos por isso. Pelo contrário, quando a realidade é percebida como externa a nós, ela nos interessa na medida em que nos pode ser útil. Concepções de mundo que abrem diferentes horizontes e perspectivas, que deixam uma marca profunda na história, para o bem ou para o mal. Bastaria reler as páginas da astronomia aristotélica em De Coelo ou Física para compreender como se moveu Aristóteles, um dos protagonistas da formação do pensamento ocidental. Um mundo ordenado e finito, estruturado em 55 esferas, com a terra no centro. O movimento só poderia ser esférico, porque a esfera, na mentalidade dos primeiros filósofos, é a forma mais perfeita. O universo é então finito, porque tem um centro, nomeadamente o centro da terra e, na lógica aristotélica, um corpo com centro só pode ser finito. Um universo feito assim pode ser gerenciado pela mente humana, pode ser controlado e, acima de tudo, não gera surpresas. 

O homem ocidental considerava-se o centro de um universo finito com movimentos circulares perfeitos. Do caos desordenado passamos para a ordem do cosmos. Como sabemos, a Igreja adotou este modelo, que foi assimilado ao sistema teológico de São Tomás, que utilizou o sistema filosófico aristotélico para sistematizar os principais mistérios da revelação bíblica de forma clara e ordenada. Existe uma necessidade de ordem que foi impressa no caminho da cultura ocidental, uma necessidade que moldou todas as formas de conhecimento ao longo do tempo, incluindo o conhecimento religioso. Neste caminho de passagem do caos à ordem, a realidade foi compreendida e ordenada a partir de princípios a priori. O mundo que circunda o homem entrou no sistema desenhado pelo homem e respondeu aos propósitos indicados pela cultura. Há, portanto, uma relação de força que orienta o caminho da cultura ocidental na sua relação com um mundo que não é compreendido senão na medida em que é interpretado a partir de esquemas de pré-compressão. Mais uma vez, é possível ler nesta perspectiva o sofrimento do planeta Terra, gradualmente violado por uma cultura que, antes de ouvir a realidade, classificou-a e obrigou-a a enquadrar-se em padrões pré-definidos. 

Nem todas as culturas percorreram o mesmo caminho. Permanecendo no terreno dos povos indígenas acima mencionados, a sua visão de mundo, que não é movida pela necessidade de ordem e controle, mas pela percepção de fazer parte do Todo, produziu uma forma diferente de habitar a terra. Pesquisas recentes de um grupo de antropólogos, arqueólogos e pesquisadores brasileiros identificaram, com as novas ferramentas oferecidas pela tecnologia, que no subsolo da chamada região Pan-Amazônica, que envolve nove países, existem cerca de dez mil sítios arqueológicos, sinal de uma região altamente habitada, ao contrário das estimativas feitas por pesquisas anteriores, muitas vezes ditadas por razões ideológicas e políticas. A característica que permitiu aos arqueólogos identificar estes sítios é a biodiversidade. O fato surpreendente, de fato, é que a presença dos povos indígenas ao longo dos séculos produziu a proteção e o desenvolvimento da biodiversidade no território habitado, exatamente o oposto do que aconteceu no Ocidente onde, os homens chegaram, produziram não apenas a morte e destruição de outras culturas, mas também a deterioração da biodiversidade local. 

Mais uma vez fica claro que a nossa forma de pensar o mundo e a realidade envolvente determina um estilo de vida, uma forma de habitar a realidade. Não se trata de contrastar culturas ou de elogiar umas e desprezar outras, mas simplesmente de realçar a diversidade de percursos culturais e a diferente abordagem ao mundo envolvente que provocam. Há quem gostou de inventar sistemas, rabiscar doutrinas, forçar a realidade a caber nas elucubrações da sua mesa de centro, e quem, em vez disso, passava o tempo em contacto com a natureza, procurando viver em harmonia, percebendo uma certa sacralidade, protegendo e respeitando isso. Diferentes caminhos que produziram diferentes mentalidades e sociedades.


terça-feira, 12 de novembro de 2024

A BÍBLIA UMA ARVORE DAS MUITAS CORES

 



Paolo Cugini


Estamos habituados a pensar e a ler a Bíblia com os olhos da cultura de onde viemos, que durante séculos nos ensinou a anular as diferenças, ou melhor, a considerar a diferença como uma negação. Quem lê a Bíblia com os óculos da cultura linear corre o risco de lê-la superficialmente, ou seja, como uma história escrita do começo ao fim, identificando a verdade de Deus com o que se lê de imediato. Sabemos que a história sempre foi escrita por quem vive nos palácios dos reis e por isso é quase sempre uma história do centro, escrita para justificar e defender um poder. Nessas histórias, como a escola da Nouvelle Histoire nos ensina há décadas, pouco ou nada resta da história real, ou seja, daquela vivida pelas pessoas comuns, pelos agricultores, pelas pessoas simples que permanecem excluídas das construções, por aqueles que na realidade são os verdadeiros protagonistas dos acontecimentos históricos. Mesmo na Bíblia encontramos narrativas históricas que ao longo dos séculos foram relidas, manipuladas, por assim dizer, pelo poder central vigente e que, portanto, são afetadas por essas exclusões.

Portanto, não é por acaso que há teólogas que há anos releem a Escritura a partir de uma perspectiva diferente, nomeadamente a das mulheres, para captar uma palavra diferente nos silêncios impostos às mulheres. Quem se escandaliza com este tipo de percurso diferente, com esta tentativa de ler nas entrelinhas, de ouvir o silêncio daqueles que sempre foram silenciados é porque são dominados pela sua própria cultura linear, que no caso da cultura ocidental é também a expressão de um pensamento forte, muitas vezes arrogante e opressivo. O que dizer então daquela forma de ler a Palavra de Deus a partir dos pobres - outra grande categoria de pessoas silenciadas pelo poder político e religioso - que a Igreja latino-americana nos ensinou desde os anos posteriores ao Concílio? Uma coisa é, de fato, ler a Palavra de Deus de chinelos, num acolhedor apartamento ocidental. Outra coisa é ler a mesma Palavra entre as pessoas que vivem nas favelas ou nos bairros pobres de uma cidade. São vozes diferentes, olhos diferentes e mentalidades diferentes que não são mutuamente exclusivas, mas podem ser harmonizadas. É este olhar diferente que lê a Palavra de diferentes ângulos que desconstrói as certezas, não porque, como se poderia argumentar superficialmente, relativiza os conteúdos, mas porque muito mais simplesmente os contextualiza. É então importante sublinhar, neste ponto da discussão, como este processo de desestruturação, de polifonia de vozes diferentes, ocorre dentro de um mesmo texto bíblico, que é tudo menos uma história linear. Na verdade, encontramos, lado a lado, conteúdos que provêm de diferentes tradições culturais, não só no tempo, mas também na geografia. O que podemos dizer, por exemplo, sobre a forma de compreender a monarquia na história de Israel? Por que existem textos que se manifestam a favor da monarquia e outros que expressam todo o seu desconforto com esta instituição?

Existem muitas vozes diferentes que o leitor atento encontra nas Escrituras. Ouvir a voz das diferenças que encontramos no texto bíblico sem procurar imediatamente formas de sintetizar, de silenciar a inquietação da nossa consciência, é um dos mais belos desafios que a Escritura nos chama a enfrentar. Libertar-nos das nossas certezas que, se olhadas em profundidade, não passam de durezas, isto é, verdades às quais confiamos, sem nunca as questionar, a solidez da nossa vida espiritual, é um dos grandes dons que a Palavra de Deus nos dá ofertas. Entrar no mundo da pluralidade de vozes, de modos de sentir e de ser, sem a necessidade de reduzi-los todos a uma só voz, mas simplesmente aprendendo a habitar a diferença: esta é a beleza da vida espiritual que brota da Bíblia. É assim que descobrimos que não basta ler a Bíblia, mas o que importa é como nos deixamos olhar por ela, como nos deixamos mudar pela sua pluralidade de vozes. Nesta perspectiva, compreendemos como a conversão do coração anunciada pelos profetas e solicitada por Jesus não significa tanto a entrada num caminho particular, mas consiste na disponibilidade para alargar os nossos horizontes, o nosso coração, na possibilidade que se dá gratuitamente. para abrirmos nossa mente para sermos mais livres. A verdade e, ao mesmo tempo, a necessidade de um círculo bíblico deve ser visíveis na mente aberta daqueles que dele participam. O esforço missionário da Igreja para anunciar o Evangelho ao mundo vai exatamente nesta direção, ou seja, na possibilidade de criar homens e mulheres livres, pessoas capazes de ouvir as diferenças porque aprenderam a acolher a diferença dos outros, habitar a complexidade, viver na pluralidade de pontos de vista.


segunda-feira, 11 de novembro de 2024

MARIA MÃE DE JESUS ​​​​- INTERVENÇÃO DE SELENE ZORZI

 





Tradução: Paolo Cugini





Para nos aproximarmos de Maria devemos limpar nossos óculos. Maria se tornou uma personagem complicada na vida das mulheres. Maria é uma personagem onipresente na vida de fé.
Nome comum de Maria: Maria se tornou um nome comum. No imaginário coletivo, Maria representa todas as mulheres. A universalização do patriarcado é notada. Tudo o que não é masculino é neutro.

Naturalização As mulheres são acima de tudo mães, são importantes como mães, esquecendo que também têm cérebro.
Estereótipos Generalizamos para ver e querer um certo tipo de mulher. Também ideolizamos Maria .

A mentalidade católica é androcêntrica, produzindo uma forte idealização em relação às mulheres. Maria é a bem-aventurada entre as mulheres, mas é só ela e esta singularidade a separa das outras mulheres. É daí que vem a ideologia das mulheres. Maria torna-se problemática como presença entre as mulheres. Nenhuma mulher poderá ser como ela e, portanto, ela se torna um modelo esmagador.
Maria foi o ponto de referência das homilias e falavam de Maria e do corpo da mulher ligados à ideia de pecado. A virgindade adquire um significado social e seu papel teológico se perde nas moralizações.

Antropologia dualista : divide os dois sexos como pólos opostos, como complementares. Esta antropologia de oposição criou a personagem de Maria que, para muitas mulheres, é demasiado incómoda. A antropologia dualista, ao ler Maria, cria o eterno feminino, um arquétipo que olha para Maria como uma encarnação do ideal da essência do feminino. Aqui o homem sempre vem em primeiro lugar. A mulher é funcional para o homem e as mulheres são servas.

A virgindade pode ser interpretada como a autonomia da mulher. Pode ser interpretado em um sentido moralista. Ajuda o homem saber que o primeiro filho será dele.
Mãe: função biológica. A função de mãe pertence a cada crente, porque todos devemos dar à luz a Deus na nossa vida de fé.

A teologa italiana Selene Zorzi



Como isso aconteceu?
Nos primeiros séculos já existia a ideia da deusa mãe. Ísis, Deméter, etc. São deusas que possuem aspecto maternal. Os Padres da Igreja comparam Maria a estas figuras. Encontramos a nossa Maria Católica nas montanhas, grutas e muito mais, locais típicos das deusas mediterrânicas. São locais que indicam contato com a força da terra.

Os Padres da Igreja pegaram títulos de deusas e os atribuíram a Maria. As primeiras Marias são mulheres que amamentam. As primeiras representações verdadeiras de Maria amamentando como divindade são encontradas no Egito, nos mosteiros, que a herdam das deusas egípcias. Os padres adaptaram a figura de Maria à deusa materna, fizeram um trabalho de inculturação. Ao assumir essas características, Maria se diviniza cada vez mais e se torna uma divindade. Na Idade Média, todas as funções cristológicas e pneumatológicas eram atribuídas a Maria. Maria é co-redentora, no mesmo nível do Deus masculino.

Elisabeth Jonson: relação entre a figura de Maria e Jesus e não há distinção entre os dois. De alguma forma, a imagem religiosa de um Deus masculino sente a necessidade de ter feminilidade. Precisamos limpar os nossos copos deste desperdício cultural que confundiu a Maria do Evangelho. A questão é que não temos uma linguagem feminina para dizer Deus. Ninguém pode dizer Deus no feminino, dizer Deusa. Desde Gen 1 acreditamos que as mulheres são criadas à imagem de Deus, existem metáforas femininas para falar de Deus.

No AT a palavra ruah, que indica o Espírito, é uma palavra feminina e tem funções femininas. Crie espaço, faça as pessoas viverem. Shekinah, a tenda de Deus entre nós: é uma metáfora feminina.

Os teólogos têm procurado metáforas nas quais Deus é chamado de mãe. Entranhas de misericórdia, Deus tem um ventre que ama como uma mãe. Isaías 49: A mãe não se esquece do filho.
Fio da sabedoria divina . A Sabedoria do AT é um personagem. O Logos está ao lado de Deus. A sabedoria que quebra estereótipos porque fala nas ruas. Deus aqui tem características femininas.
Existem duas parábolas : drama e fermento. É um mundo que se expressa no feminino. Jesus se inspirou nas ações de sua mãe. Entenda como Jesus de Nazaré viveu uma mulher, com sua mãe.

O estudo das teólogas ajuda a aproximar-nos de Maria.
A divinização de Maria ocorreu lentamente, também devido ao ambiente cultural, ao modelo patriarcal. O único espaço que o cristianismo deixou para as mulheres foi o corpo de Maria.
Se Cristo assumiu a masculinidade, ele não salva as mulheres, mas Cristo assume a humanidade. Maria tornou-se também o esquema social do papel que a mulher deveria desempenhar numa determinada cultura então espiritualizada.
No sim de Maria está o respeito de Deus pelas mulheres, porque Maria também poderia dizer não.