Como e quando a política pode se tornar caminho de liberdade?
Paolo Cugini
A política, em sua essência
mais profunda, nasce da tentativa de materializar uma visão de mundo. Ela não é
apenas gestão administrativa, mas a manifestação pública do que cada indivíduo
ou sociedade compreende como o Bem. No entanto, o caminho entre o ideal
ético e a organização do Estado é marcado por tensões entre a virtude, o poder
e a necessidade de sobrevivência.
Para Platão, em A
República, a política era uma extensão da alma. O "Bem" ocupava o
topo da hierarquia das ideias, e somente aqueles capazes de uma elevação
dietética (ou dialética) , um rigoroso processo de purificação do pensamento, poderiam contemplá-lo. O governante, então,
seria o filósofo que, tendo visto a luz, retornaria à "caverna" para
guiar o povo.
Essa estrutura de pensamento
encontrou eco e ampliação no cristianismo. A política passou a ser vista não
apenas como busca pela ordem ideal, mas como um compromisso moral. O
cristianismo introduziu a centralidade dos excluídos, transformando o
governo em uma missão de cuidado especial para com os pobres e vulneráveis.
Aqui, a política é amor ao próximo institucionalizado.
Com o advento da modernidade,
o otimismo clássico-cristão enfrentou a dureza dos fatos. A Europa, devastada
por guerras religiosas e disputas territoriais, forçou a filosofia a descer das
nuvens. O foco mudou da "cidade ideal" para a "sobrevivência
real".
Thomas Hobbes, John Locke e
Jean-Jacques Rousseau surgiram como arquitetos de uma política mais prática.
Hobbes, ao propor o Leviatã, respondeu ao caos da guerra de todos contra
todos. Embora o Estado totalitário pareça assustador hoje, para sua época era a
única saída contra a intolerância e o extermínio mútuo. Locke e Rousseau, por
sua vez, tentaram equilibrar essa necessidade de ordem com a preservação de
direitos e a vontade geral, reconhecendo que a condição humana é complexa e
movida por interesses muitas vezes conflitantes.
Apesar dos avanços
contratuais, o grande problema político da nossa era permanece em aberto: como
construir um modelo de Estado que, sem ignorar a face violenta e egoísta da
condição humana, garanta um espaço para a liberdade plena.
A política moderna não pode
ser apenas contenção de danos (como queria Hobbes), mas deve permitir que as
capacidades humanas floresçam. Só existe desenvolvimento humano onde há
liberdade de manifestação e escolha. O desafio contemporâneo é, portanto, sintetizar
a visão de Platão e do cristianismo, o compromisso com o Bem e com o outro, com
as garantias institucionais que protejam o indivíduo de abusos de poder.
A política, enfim, continua
sendo a arte de equilibrar o teto das nossas aspirações éticas com o chão firme
(e por vezes lamacento) da nossa realidade social.
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