quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

TEOLOGIA TRANSGRESSIVA

 

 


Paolo Cugini

 

A teologia transgressiva representa uma das fronteiras mais provocativas do pensamento religioso contemporâneo. Ela não se limita ao estudo do divino, mas desafia ativamente as fronteiras dogmáticas, sociais e morais que as instituições religiosas construíram ao longo dos séculos. A teologia transgressiva não é uma doutrina única, mas uma abordagem metodológica. Parte do pressuposto de que o sagrado muitas vezes está encerrado dentro de estruturas de poder que excluem a alteridade. Transgredir, neste contexto, significa cruzar fronteiras para encontrar o Mistério onde a religião oficial diz que não deveria estar: entre os marginalizados, no corpo, no desejo e na desordem.

Suas raízes encontram-se nas teologias da libertação e estão intrinsecamente ligadas à filosofia pós-moderna (como o pensamento de Michel Foucault e Georges Bataille), que vê a superação das limitações como um momento de revelação. Enquanto a teologia clássica muitas vezes foi escrita pelos vencedores, a teologia transgressiva desloca o centro de gravidade para as periferias existenciais. O Mistério não está apenas no templo, mas está presente no clamor daqueles que rompem com o status quo. Essa teologia surge frequentemente em contextos marginalizados, onde vozes excluídas das narrativas oficiais encontram espaço para se expressar. É uma reflexão que abraça a diversidade de gênero, orientação sexual, etnia e condição social, questionando como a mensagem cristã pode ser autenticamente universal. O risco de repensar a fé abre novos caminhos de compreensão. Entre as principais expressões da teologia transgressiva estão a teologia queer, a teologia feminista e as teologias da libertação, que questionam as estruturas de poder estabelecidas dentro das igrejas e da sociedade. Essas correntes propõem uma leitura inclusiva das Escrituras, valorizando as experiências daqueles que foram historicamente marginalizados. Sua contribuição reside em enfatizar que o sagrado nunca é estático, mas se regenera por meio do diálogo e da aceitação das diferenças. Muitas religiões historicamente reprimiram o corpo. A teologia transgressora (frequentemente ligada à  Teologia Queer ) resgata a sacralidade do desejo, considerando a intimidade e a vulnerabilidade física como metáforas da relação entre o humano e o divino. Ela utiliza a dúvida não como um fim em si mesma, mas como ferramenta para libertar a experiência religiosa das superestruturas ideológicas e patriarcais.

Por que a transgressão é necessária? Segundo seus defensores, uma religião que se recusa a ser questionada torna-se um ídolo. A transgressão serve para destruir as imagens reconfortantes do Mistério, buscando sua essência além das palavras e desafiando leis injustas em nome de uma lei superior de amor e aceitação. Naturalmente, essa corrente atrai fortes críticas. Instituições eclesiásticas frequentemente acusam a teologia transgressiva de relativismo ou de perder seu senso do sagrado. No entanto, os teólogos transgressivos argumentam que o Jesus histórico foi, por sua vez, um transgressor: ele comeu com pecadores, violou o sábado e desafiou as autoridades religiosas de sua época a recolocar a humanidade no centro. A teologia transgressiva não busca destruir a fé, mas revivê-la. Ela nos lembra que o Mistério não pode ser aprisionado em definições finitas. É um convite a buscar o sagrado não apenas na norma, mas também no excepcional, no diferente e no inesperado.

A transgressão não é um fim em si mesma, mas sim orientada para uma maior justiça, inclusão e verdade: não demolir por destruir, mas sim construir relações mais livres e autênticas. A teologia transgressiva não propõe um novo dogma, mas uma nova perspectiva: olhar para o Mistério a partir das margens, do descartado, de experiências que não se encaixam nas categorias oficiais. A transgressão torna-se, então, um ato espiritual: cruzar fronteiras para encontrar o Mistério onde menos se espera. Para algumas comunidades de fé, esse caminho pode parecer perigoso; para outras, é a única maneira de permanecer fiel ao Evangelho em um mundo marcado por uma nova consciência do corpo, do poder, do gênero e da ecologia. Em todo caso, a teologia transgressiva força a fé a confrontar as questões do presente, sem se refugiar em respostas pré-fabricadas, e isso a torna uma das áreas mais vivas e provocativas do pensamento teológico contemporâneo.