Paolo Cugini
28 Fevereiro 2026
"A doutrina, por sua natureza, tende
a formular normas e princípios gerais, muitas vezes baseados em abstrações e em
um conhecimento parcial da complexidade humana. Consequentemente, pode parecer
rígida e incapaz de acolher toda a riqueza e as nuances da experiência
individual e coletiva."
O artigo é de Paolo Cugini, publicado por Viadanti, 25-02-2026.
Paolo Cugini é professor de filosofia e teologia na Faculdade
Católica da Amazônia e pároco de uma parèoquia de Manaus. Autor de "O
nome de Deus não é mais Deus: dizer o Mistério em um mundo pós-cristão (Effatà,
2025).
Eis o artigo.
Existe uma teologia que não busca o palco, que não se
afana para obter reconhecimentos nem se apega ao rigor dos grandes sistemas
doutrinários. É a teologia marginal, aquela que nasce na sombra, entre as
trilhas poeirentas da história, onde a vida é medida pelo peso dos dias e pelo
ruído surdo dos fracassos cotidianos.
Ensinamentos escondidos
Há muito o que aprender sob as pontes, entre as mãos
trêmulas de quem não encontrou refúgio, entre os corpos cansados que buscam
abrigo no vento da noite. Há ensinamentos escondidos na fome que morde a cada
amanhecer, naqueles rostos que enfrentam o dia sem a certeza de uma refeição.
Nestes lugares, a presença do Mistério revela-se potente,
quase como se quisesse desmentir a presunção das grandes cátedras.
Sergio Omassi | Pexels
Há algo de prodigioso na vida dos pobres, uma
sabedoria que não nasce dos livros, mas do contato direto com o sofrimento, a
solidariedade e a resistência cotidiana. Se de fato, como narra o Evangelho, Jesus quis
se identificar com os últimos, é sinal de que o percurso autêntico em direção
ao conhecimento do Mistério passa justamente por essa solidariedade com quem
vive às margens.
Assim, a teologia marginal, embora
permaneça nos confins, guarda um tesouro de verdade muitas vezes ignorado. Ela
nos lembra que o verdadeiro conhecimento não se conquista do alto, mas se
acolhe inclinando-se, abaixando-se, compartilhando o pão amargo da existência.
No fundo, o Mistério habita onde o coração se faz
próximo, onde o homem se faz irmão, a mulher irmã, onde a pobreza se torna
ventre de luz e a marginalidade se transforma em lugar de revelação. Tentemos
dar alguns exemplos de teologia marginal.
A Tradição escrita na/pela vida cotidiana
Foi participando das celebrações da Palavra nas Comunidades de
Base do Brasil que
me dei conta do machismo exacerbado da Igreja Católica e da cultura patriarcal
que, ainda hoje, dita suas escolhas. Tantas mulheres na América Latina não
apenas presidem as celebrações dominicais, mas guiam pastoralmente as
comunidades, no cuidado com os pequenos, na atenção zelosa aos tantos pobres
encontrados. São justamente elas, as mulheres, as grandes protagonistas dos
conselhos pastorais e do caminho cotidiano da Igreja. É ouvindo a voz e a
vivência dessas mulheres que a estrutura doutrinária da eclesiologia pensada no
centro do Ocidente se derrete como neve ao sol.
Acompanhando a ação pastoral dessas mulheres, as
conclusões dos trabalhos da Comissão para
o Estudo do Diaconato Feminino parecem sem sentido, pois não levam em conta a
vivência cotidiana das comunidades eclesiais e o princípio da Encarnação. A
teologia marginal, de fato, ensina que não podemos considerar
"Tradição" apenas aquela que foi formulada ao longo dos séculos pelos
documentos oficiais do Magistério, mas também aquela que é escrita
todos os dias nas páginas da vida cotidiana das comunidades.
É esta Tradição que é sistematicamente ignorada
pelo Magistério Eclesial cada vez que formula seus documentos
oficiais, e é precisamente esta Tradição viva que a teologia das margens
pretende recuperar.
O princípio da Encarnação
É possível desmantelar o patriarcado, que tantos danos
causa às mulheres e à sociedade, propondo escolhas que levem em conta as
mulheres reais, suas vivências dentro e fora da Igreja. É hora de parar de se
esconder atrás de uma Tradição — ela mesma estruturada na cultura patriarcal —
para justificar escolhas que vão sempre na mesma direção do poder masculino e
autorreferencial.
Uma Igreja que pretenda ser profética na atual
conjuntura histórica precisa colocar-se à escuta do grito das mulheres que há
séculos imploram a misericórdia de Jesus. É justamente
esse grito que a teologia das margens está recolhendo e ouvindo para elaborar
uma narrativa teológica sensível ao princípio da Encarnação.
O mesmo discurso vale para as pessoas homossexuais e
a comunidade LGBTQ+. Nos anos em que acompanhei um grupo de
cristãos LGBTQ+, nunca constatei qualquer tipo de desordem moral
entre os casais homossexuais que frequentavam o grupo de oração. Encontrei, por
outro lado, muita fé, amor zeloso, atenção e o desejo de um projeto de vida que
pudesse dar sentido ao seu caminho.
Lendo no grupo o texto de alguns documentos oficiais
da Igreja que falam deles, senti vergonha. Quantas vezes recolhi as lágrimas de
alguns/as do grupo de cristãos LGBTQ+ que contavam como haviam
sido tratados no confessional? Rejeitados, como se fossem leprosos. Como é
possível não dar a absolvição a uma pessoa que, com humildade, implora o perdão
de Jesus? Como a Igreja pode se definir, nos textos oficiais, como "mestra
de humanidade", quando na prática cotidiana é de uma desumanidade absurda?
Um diálogo fundamental
A teologia marginal, colocando-se à escuta
das pessoas reais, recolhendo seus testemunhos e suas verdades, constrói um
discurso teológico que leva em conta a revelação do Mistério que vem da terra,
da vivência cotidiana, daquela realidade feita de carne e osso e não de papel e
tinta. Manter o diálogo entre o Magistério eclesial oficial e
aquela Tradição que nasce da vida cotidiana é fundamental para não correr o
risco de escrever. Documentos que ferem as pessoas e as afastam da Igreja.
Uma teologia que surge de baixo, em
escuta às minorias marginais, não pode senão tornar-se uma teologia
do dissenso, que representa um âmbito de reflexão e de confronto que, embora se
desenvolva dentro do panorama eclesial, carrega-se de uma valência
profundamente humana e comunitária.
O dissenso, ao contrário do que se poderia pensar, não
brota de um espírito de rebelião por si só, mas da percepção aguda de uma
distância — como observamos, por vezes dolorosa — entre os princípios absolutos
afirmados pela hierarquia e a concretude da vida cotidiana. Frequentemente são
justamente aqueles que vivem na própria pele essa discrepância que dão voz ao
dissenso, não para negar a fé, mas para permanecer fiéis a ela no contexto da
sua realidade.
Um aguilhão crítico
A doutrina, por sua natureza, tende a
formular normas e princípios gerais, muitas vezes baseados em abstrações e em
um conhecimento parcial da complexidade humana. Consequentemente, pode parecer
rígida e incapaz de acolher toda a riqueza e as nuances da experiência
individual e coletiva.
Nesse espaço de descolamento, o dissenso
teológico encontra sua razão de ser e se torna porta-voz das demandas
de quem não se reconhece em definições percebidas como muito abstratas,
impessoais ou até nocivas para quem vive situações de marginalidade ou julgamento
negativo.
O dissenso muitas vezes se manifesta de modo
silencioso, quase submerso: muitas pessoas, em seu cotidiano, escolhem caminhos
pessoais que divergem das prescrições doutrinárias, às vezes sem sequer ter
consciência disso.
Isso levanta uma questão fundamental: para que serve a
doutrina, se não para guiar e sustentar o caminho de fé das pessoas? A
doutrina, de fato, deveria ser um instrumento a serviço da vida, não um fardo
insuportável. Nesta perspectiva, o dissenso configura-se como um aguilhão
crítico, um elemento indispensável para evitar que a fé se reduza a um conjunto
de regras abstratas.
Fonte: https://ihu.unisinos.br/662838-insights-para-uma-teologia-das-margens-artigo-de-paolo-cugini