segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

SANTO: ORIGEM DA PALAVRA

 



 

A palavra santo possui raízes no latim e conexões conceituais com o hebraico e o grego dentro do contexto religioso: 

1. Origem Latina 

Deriva do latim sanctus, que é o particípio passado do verbo sancire

  • Significado original: "Consagrar", "tornar sagrado" ou "estabelecer como inviolável".
  • Conexão jurídica: No latim clássico, algo sanctum era o que estava sob a sanção da lei, tornando-se inviolável ou "sagrado" por decreto. 

2. Equivalentes Bíblicos

Para compreender o sentido teológico atual de "santo", é necessário olhar para as línguas originais das Escrituras:

  • Hebraico (Qadosh ou Kadosh): Significa "separado", "cortado" ou "distinto". Indica algo que foi retirado do uso comum para ser dedicado exclusivamente ao serviço divino.
  • Grego (Hagios): Utilizado no Novo Testamento, também carrega a ideia de ser "separado para Deus" ou "consagrado". 

3. Evolução do Significado

  • Antiguidade: Referia-se a algo estabelecido por lei ou ritual como intocável.
  • Contexto Religioso: Passou a designar a pureza moral e a divindade, descrevendo tanto a natureza de Deus quanto pessoas reconhecidas por sua virtude excepcional ou devoção.
  • Uso Atual: Em 2026, o termo é amplamente usado tanto como adjetivo (para descrever o que é sagrado) quanto como substantivo (para se referir a figuras veneradas em tradições cristãs). 

 

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

TEOLOGIA TRANSGRESSIVA

 

 


Paolo Cugini

 

A teologia transgressiva representa uma das fronteiras mais provocativas do pensamento religioso contemporâneo. Ela não se limita ao estudo do divino, mas desafia ativamente as fronteiras dogmáticas, sociais e morais que as instituições religiosas construíram ao longo dos séculos. A teologia transgressiva não é uma doutrina única, mas uma abordagem metodológica. Parte do pressuposto de que o sagrado muitas vezes está encerrado dentro de estruturas de poder que excluem a alteridade. Transgredir, neste contexto, significa cruzar fronteiras para encontrar o Mistério onde a religião oficial diz que não deveria estar: entre os marginalizados, no corpo, no desejo e na desordem.

Suas raízes encontram-se nas teologias da libertação e estão intrinsecamente ligadas à filosofia pós-moderna (como o pensamento de Michel Foucault e Georges Bataille), que vê a superação das limitações como um momento de revelação. Enquanto a teologia clássica muitas vezes foi escrita pelos vencedores, a teologia transgressiva desloca o centro de gravidade para as periferias existenciais. O Mistério não está apenas no templo, mas está presente no clamor daqueles que rompem com o status quo. Essa teologia surge frequentemente em contextos marginalizados, onde vozes excluídas das narrativas oficiais encontram espaço para se expressar. É uma reflexão que abraça a diversidade de gênero, orientação sexual, etnia e condição social, questionando como a mensagem cristã pode ser autenticamente universal. O risco de repensar a fé abre novos caminhos de compreensão. Entre as principais expressões da teologia transgressiva estão a teologia queer, a teologia feminista e as teologias da libertação, que questionam as estruturas de poder estabelecidas dentro das igrejas e da sociedade. Essas correntes propõem uma leitura inclusiva das Escrituras, valorizando as experiências daqueles que foram historicamente marginalizados. Sua contribuição reside em enfatizar que o sagrado nunca é estático, mas se regenera por meio do diálogo e da aceitação das diferenças. Muitas religiões historicamente reprimiram o corpo. A teologia transgressora (frequentemente ligada à  Teologia Queer ) resgata a sacralidade do desejo, considerando a intimidade e a vulnerabilidade física como metáforas da relação entre o humano e o divino. Ela utiliza a dúvida não como um fim em si mesma, mas como ferramenta para libertar a experiência religiosa das superestruturas ideológicas e patriarcais.

Por que a transgressão é necessária? Segundo seus defensores, uma religião que se recusa a ser questionada torna-se um ídolo. A transgressão serve para destruir as imagens reconfortantes do Mistério, buscando sua essência além das palavras e desafiando leis injustas em nome de uma lei superior de amor e aceitação. Naturalmente, essa corrente atrai fortes críticas. Instituições eclesiásticas frequentemente acusam a teologia transgressiva de relativismo ou de perder seu senso do sagrado. No entanto, os teólogos transgressivos argumentam que o Jesus histórico foi, por sua vez, um transgressor: ele comeu com pecadores, violou o sábado e desafiou as autoridades religiosas de sua época a recolocar a humanidade no centro. A teologia transgressiva não busca destruir a fé, mas revivê-la. Ela nos lembra que o Mistério não pode ser aprisionado em definições finitas. É um convite a buscar o sagrado não apenas na norma, mas também no excepcional, no diferente e no inesperado.

A transgressão não é um fim em si mesma, mas sim orientada para uma maior justiça, inclusão e verdade: não demolir por destruir, mas sim construir relações mais livres e autênticas. A teologia transgressiva não propõe um novo dogma, mas uma nova perspectiva: olhar para o Mistério a partir das margens, do descartado, de experiências que não se encaixam nas categorias oficiais. A transgressão torna-se, então, um ato espiritual: cruzar fronteiras para encontrar o Mistério onde menos se espera. Para algumas comunidades de fé, esse caminho pode parecer perigoso; para outras, é a única maneira de permanecer fiel ao Evangelho em um mundo marcado por uma nova consciência do corpo, do poder, do gênero e da ecologia. Em todo caso, a teologia transgressiva força a fé a confrontar as questões do presente, sem se refugiar em respostas pré-fabricadas, e isso a torna uma das áreas mais vivas e provocativas do pensamento teológico contemporâneo.

 

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

A proposta pós-humanista de Leonardo Caffo

 




O filósofo italiano Leonardo Caffo afirma que o pós-humano contemporâneo não é ficção científica tecnológica, mas sim um projeto ético que parte da crítica ao especismo e ao antropocentrismo para repensar a humanidade como frágil, limitada e em relação com os outros seres vivos (Caffo, 2017, p. 82). O autor propõe uma transformação do olhar humano sobre os animais, a técnica e o planeta, convidando à construção de um pós-humanismo dos limites, no qual a renúncia ao domínio se torna a condição mesma de uma nova forma de progresso.

O volume é relativamente breve, mas densíssimo, e divide-se em duas partes principais: Transformação e Especiação. Esta estrutura acompanha o leitor desde o diagnóstico do presente (crítica ao especismo e ao antropocentrismo) até à proposta positiva de uma nova configuração ética pós-humana. A Introdução esclarece que o pós-humano contemporâneo é uma “antecipação de um estado de coisas futuras” (Caffo, 2017, p. VIII) que já tem as suas causas no presente, sobretudo nas relações com os animais e na técnica. Caffo rejeita a versão puramente tecnológica do pós-humano (cyborg, imortalidade, aprimoramento), sublinhando que o verdadeiro nó é ético e político. A proposta, portanto, é a de um caminho de desconstrução (Caffo cita explicitamente Derrida), que consiste em “despir um problema sem se preocupar com a sua nova roupagem” (Caffo, 2017, p. IX).

A primeira parte, Transformação, discute a primeira transformação como inversão do nosso olhar especista sobre o mundo, uma espécie de pílula do antiespecismo, que torna visível o matadouro oculto da sociedade contemporânea. A segunda parte, frequentemente identificada como Especiação, desenvolve a ideia de uma nova forma de humanidade que aceita o limite, renuncia à ideia de domínio absoluto e se pensa inserida numa constelação de vidas e ambientes, e não acima deles.

Transformação

A secção inicial gira em torno do conceito de especismo, definido como a discriminação sistemática das outras espécies em favor do Homo sapiens, que se torna o motor oculto da economia e da nossa organização social. Caffo resgata o termo elaborado por Richard D. Ryder (Caffo, 2017, p. 7), mas relacionando-o às formas concretas de exploração: pecuária, indústria alimentar, vestuário, entretenimento e experimentação científica, todos elementos que estruturam o nosso quotidiano.

Nas páginas iniciais da primeira parte, o autor insiste no facto de que o mundo social, se visto através da pílula do antiespecismo, aparece como um matadouro, onde a morte sem sentido dos animais é normalizada e tornada invisível.

Esquecemo-nos de que não estamos sozinhos. O especismo é o motor da economia: com os animais, e com o que resta dos seus corpos, produzimos literalmente qualquer coisa […]. Portanto, os animais estão em todo o lado, mas não os conseguimos ver, porque, simplesmente, os escondemos: o especismo é também um encobrimento (Caffo, 2017, p. 9-10).

Esta mudança de olhar não é uma simples tomada de consciência moral, mas uma verdadeira transformação ontológica da forma como o humano se coloca no mundo. O eixo ético da primeira transformação consiste em desmontar a ideia de que o planeta é nossa casa no sentido de propriedade exclusiva. Caffo afirma que a humanidade especista convenceu-se de que o planeta é nosso, construindo uma moldura ideológica que justifica toda a forma de exploração. Sem a moldura do especismo, sustenta, o antropocentrismo não teria força para orientar e legitimar a nossa prática quotidiana de domínio. Nesta primeira parte, delineia-se um primeiro perfil do antropocentrismo como um olhar pobre de mundo, que reduz a diversidade do vivente a adorno e fundo da experiência humana. O vivente não-humano surge, assim, como simples recurso ou figura decorativa, e não como sujeito de uma história própria ou portador de um mundo experiencial próprio. “O especismo é um uso da razão como virtude não indiferente: o humano fala, o animal não; o humano pensa, o animal não; o humano é autoconsciente, o animal não” (Caffo, 2017, p.14). A razão como característica distintiva do humano é um dos paradoxos ilusórios do especismo, pois provoca uma leitura distorcida não só da realidade, mas também do que é o humano.

Um ponto central do livro é o confronto com tradições filosóficas que exaltam o super-homem, a força e a vontade de potência, assumidas por vezes como modelos de emancipação. Caffo cita de forma crítica a figura do predador e do jovem dominador que deve aprender o sentido do domínio, imaginando uma juventude terrível e pronta a esmagar todo o limite.

Num trecho significativo do livro, o autor faz referência a um discurso em que se invoca uma educação para a predação, para a vitória a todo o custo, para o apagamento do medo da morte. Esta retórica, que evoca tanto Nietzsche como tendências políticas do século XX, representa para Caffo a versão extrema do antropocentrismo armado e violento. Caffo sublinha que grande parte do nosso antropocentrismo quotidiano assenta na humanização da diversidade animal, ou seja, na projeção de esquemas humanos (vontade, desejo, intenção) em formas de vida que permanecem, contudo, alheias à nossa experiência. Em vez de reconhecer a alteridade radical dos animais, aplica-se uma espécie de homem vitruviano à teoria da mente, medindo todo outro ser vivo pelos parâmetros humanos. Este processo violento marca profundamente o discurso ético:

Os grandes desafios éticos que caracterizam o presente, desde a ecologia profunda até ao feminismo radical que, com razão, pretende eliminar definitivamente a posição de inferioridade da mulher em muitas sociedades contemporâneas, têm todos o mesmo limite: o que não é humano, simplesmente, está ausente. O especismo é o limite de toda a moral (Caffo, 2017, p. 16).

Neste quadro, o pós-humano contemporâneo não é um simples além-do-humano em sentido de potencialização, mas sim um contra esta tradição de domínio, que transformou a superioridade de espécie em destino político e cultural. A ideia de super-homem é, assim, repensada não como intensificação da potência, mas como abandono da centralidade violenta do Homo sapiens. Perante este cenário, que parece sem retorno, Caffo propõe um caminho em que se deveriam realizar três transformações.

A primeira transformação é o eixo ético, que deveria levar-nos a olhar a realidade com novos olhos. “Enquanto for como espécie humana que pensamos em nós mesmos, sem compreender que cada vivente é antes de mais nada uma mônada que se abre ao exterior, o estaleiro permanecerá aberto” (Caffo, 2017, p. 26). Neste percurso, é preciso ter cuidado para não ficarmos presos nas grelhas conceptuais elaboradas pelo antropocentrismo. Se o especismo, de facto, é uma narrativa positiva, pois convida-nos a fazer o que queremos sem nos preocuparmos com o destino dos animais, por outro lado, o anti-especismo propõe uma narrativa exclusivamente negativa. Segundo Caffo, precisamos de conhecer um mundo possível alternativo em relação àquele que é criticado.

A segunda transformação está sempre na ordem do caminho de desconstrução. Houve, de fato, um processo de identificação indevida do Homo sapiens com o ser, que conduz, como consequência lógica, a deslocar para o plano do não-ser tudo aquilo que não pertence à identificação indevida. É necessária, portanto, uma transformação de tipo metafísico, que saiba também considerar o contributo cognitivo de outras culturas, como a oriental, que “convive há séculos com esta crença segundo a qual a natureza se diferencia quantitativamente, mas nunca qualitativamente” (Caffo, 2014, p. 37). Trata-se de uma passagem que nos conduz a um descentralização, que nos desloca para a periferia. Se eliminarmos o centro, elimina-se também qualquer possibilidade de discriminação local: “não só o humano como ideal, mas também o ideal de humano tornam-se símbolos de um passado superado” (Caffo, 2017, p. 39).

Por fim, a terceira transformação passa pelo eixo científico, que, a partir das intuições de Darwin, reconsidera o delicado tema colocado pelo criacionismo. Esta última transformação entrega um homem não criado, nem criador e, consequentemente, não dominador, como ocorreu na história não apenas ocidental. “Não vir dos céus, mas das entranhas da terra, muda radicalmente a postura filosófica com a qual observamos a realidade” (Caffo, 20217, p. 49). Somos estrangeiros migrantes vindos de um lugar desconhecido, adentrando um tempo limitado que compartilhamos com todas as outras formas de vida. Nessa nova perspectiva, muito semelhante às indicações da física quântica, a filosofia se abre ao que está fora de nós, plantas e animais. Talvez, conclui Caffo, a nova metafísica seja a ecologia. “O pós-humano começa aqui, pela tomada de consciência de um fracasso: nosso corpo, agora despido de seus três falsos trajes, está pronto para a mutação definitiva, a transformação final” (Caffo, 2017, p. 51).

Especiação

A segunda parte do livro, intitulada Especiação, desloca a atenção da crítica do presente para a construção de uma possível humanidade futura. O pós-humano contemporâneo é definido como uma configuração em que o humano se redesenha, aceitando sua própria fragilidade, a interdependência com outros seres vivos e uma relação não predatória com a técnica. Caffo afirma que o pós-humanismo que defende é “a compreensão da positividade do conceito de limite” (Caffo, 2017, p.56): parar, quando avançar equivaleria a violência, torna-se o único modo verdadeiro de progredir. Os limites não são barreiras a serem derrubadas, mas recursos que permitem evitar novas formas de dominação, sobretudo sobre os mais vulneráveis, humanos e não humanos (Caffo, 2017, p.58).

O autor distingue seu pós-humano das versões tecno-utópicas do pós-humanismo e do transumanismo, que visam ao aprimoramento ilimitado, à hibridização total homem-máquina ou à fuga da condição mortal. Em vez de superar a morte e a fragilidade, o pós-humano contemporâneo assume esses aspectos como constitutivos de nossa posição no mundo e os integra em uma ética da responsabilidade e do cuidado. Aqui, o referencial de um realismo pós-antropocêntrico torna-se central: o mundo existe independentemente de nós, mas o que conhecemos é sempre a interação entre sujeito e objeto, que chamamos de ambiente. Cada forma de vida observa a realidade segundo sua própria dotação cognitiva, e, no entanto, existe uma só realidade a interpretar, razão pela qual o realismo e a hermenêutica são inseparáveis.

A segunda parte do texto de Leonardo Caffo inicia-se com a proposta de um percurso em sete etapas para definir a parte construtiva de seu pensamento, propondo o pós-humano contemporâneo não como uma metáfora, mas como uma verdadeira nova espécie biológica que se distancia do Homo sapiens. “O pós-humano como obra aberta contrapõe-se, por princípios e parâmetros, ao humano como obra fechada do humanismo: é a maior mutação que nossa espécie está prestes a sofrer” (Caffo, 2017, p. 56).

Definição de pós-humano contemporâneo: O pós-humano é entendido como um substantivo que identifica uma espécie já existente, caracterizada por uma mudança de hábitos e adaptação biológica em resposta à crise ambiental e à superpopulação.

Uma nova ética: A passagem para uma conduta que supera o antropocentrismo, baseada na consciência de que o homem não é superior aos outros seres vivos.

Uma nova arte da interpretação: Uma revisão hermenêutica do mundo que não coloca mais o sujeito humano no centro de todo significado.

Teoria da antecipação (Arte e Arquitetura): O uso das disciplinas criativas para prever e construir os futuros espaços de vida da nova espécie.

Uma política da espécie: Uma reflexão sobre como organizar a convivência além dos limites de nação ou classe, olhando para a espécie como unidade política.

Evolução e Especiação: A análise do processo de especiação em curso, onde uma parte da humanidade abandona os traços destrutivos do Sapiens para sobreviver.

A hibridação: A etapa final que sintetiza a superação do domínio humano em favor de uma existência integrada e consciente de sua própria fragilidade dentro do ecossistema.

Essas etapas (Caffo, 2017, p. 56-87) servem ao autor para demonstrar que o pós-humano já está aqui e se manifesta através de quem escolhe viver de modo não antropocêntrico. Vale a pena retomar a proposta da sétima etapa. Caffo defende uma hibridação fraca, distanciando-se de forma clara das hibridações fortes do pós-humano tradicional.

A hibridação fraca é a imagem da vida como uma reta real, um conjunto totalmente ordenado (densamente ordenado) em que entre dois extremos do conjunto de pontos há sempre um terceiro elemento compreendido entre os dois primeiros; tal reta, que é a vida, não tem buracos, porque é essencialmente uma estrutura (Caffo, 2017, p. 87).

O que o autor pretende defender é que sua proposta não está alinhada com as teses daquele pós-humanismo radical que desemboca no transumanismo, propondo hibridações que tendem a favorecer toda tentativa de remover do humano aquilo que até agora o caracterizou, ou seja, o sofrimento, a dor, a morte. O título Humanidade frágil indica uma linha teórica precisa: não uma humanidade a ser potenciada até a invulnerabilidade, mas uma humanidade que reconhece a fragilidade como condição compartilhada com outros seres vivos e como fundamento de um novo ethos. A fragilidade não é um defeito a ser corrigido, mas a chave para desativar o dispositivo especista e antropocêntrico que justificou até agora o domínio sobre a alteridade animal e natural. Nas páginas finais, Caffo insiste que o pós-humanismo dos limites não é um retorno nostálgico ao passado, mas uma forma diferente de futuro, em que a técnica é repensada em função da redução da violência e não do aumento de poder. Parar diante da possibilidade técnica de explorar ou potencializar sem limites é apresentado como gesto político e ético radical, não como renúncia conservadora.

O livro se encerra deixando entrever um projeto filosófico mais amplo, em que antiespecismo, crítica ao capitalismo extrativo e pós-humanismo se entrelaçam na tentativa de desenhar uma nova espécie de humanidade, capaz de habitar o planeta sem pretender sua posse absoluta. Nesse sentido, a humanidade frágil é tanto diagnóstico do presente quanto programa para uma transformação futura, situada entre a ética animal, filosofia política e teoria crítica da técnica.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

A teologia fraca que nasce na noite de Natal

 

 

Paulo Cugini

 

No coração da noite mais silenciosa, nos arredores esquecidos de Belém, nasce uma teologia que não proclama dogmas inflexíveis, mas se deixa moldar pela carne e pelo pó, pelas lágrimas e pela espera. A teologia frágil não é uma negação do Mistério, mas o seu abandono nos sulcos da história, onde a vida se manifesta em toda a sua vulnerabilidade. É a teologia que surge das dobras da marginalidade, onde as perguntas não buscam respostas definitivas, mas sim abraços que possam proteger e elevar.

Essa perspectiva surge de uma leitura profunda da existência, que abraça a fragilidade como um espaço teológico, não como um acidente a ser corrigido. Ela está enraizada na experiência daqueles que vivem à margem, nos corpos exaustos dos excluídos e nos corações inquietos dos buscadores reflexivos de sentido. A teologia fraca, portanto, contrasta com a arrogância de uma fé que se afirma invencível; em vez disso, torna-se uma companheira de viagem, uma voz entre vozes, um olhar repleto de misericórdia. O cenário central dessa teologia é a manjedoura, não adornada nem celebrada, mas escolhida por necessidade e pobreza. É aqui que o Mistério se manifesta não entre os poderosos, mas entre pastores, viajantes e animais, em um contexto de rejeição e precariedade que sela sua total solidariedade com a humanidade descartada. A manjedoura não cheira a incenso, mas a feno e expectativa, àquele frio que só os sem-teto conhecem de verdade.

O nascimento de Jesus, vivenciado à margem da sociedade, é uma profecia de um Deus que não teme a pequenez, mas a acolhe como um caminho privilegiado de revelação. Naquela noite, a fragilidade deixa de ser motivo de vergonha e se torna o ventre de uma nova esperança. A teologia frágil encontra aqui o seu berço: na capacidade de ver, na pequenez, a manifestação do divino; na exclusão, a promessa de uma comunhão que transcende os limites da ordem estabelecida. Pouco depois do seu nascimento, a família de Jesus é obrigada a fugir. A precariedade torna-se uma condição existencial: exílio, medo, a necessidade de encontrar aceitação em terra estrangeira. Aqui, a teologia frágil torna-se companheira dos migrantes, dos perseguidos, dos invisíveis. A experiência do menino Jesus perseguido é um espelho fiel das vidas despedaçadas daqueles que hoje buscam refúgio, dignidade e ouvidos atentos.

Não existe teologia mais verdadeira do que aquela que se inclina sobre as feridas, que ousa nomear o sofrimento sem explorá-lo, que não teme habitar a dúvida. A teologia fraca torna-se, assim, um olhar de solidariedade, capaz de reconhecer a presença de Deus não no inacessível, mas na carne ferida e na esperança obstinada daqueles que continuam caminhando apesar de tudo. Ela não oferece respostas fáceis, mas uma presença fiel, e acolhe a pergunta como um lugar sagrado para habitarmos juntos.

A história da fé cristã é marcada por profundas tensões entre visões teológicas fortes e fracas. Por um lado, a necessidade humana de certeza muitas vezes gerou sistemas dogmáticos imponentes, por vezes distantes da realidade concreta da vida. Por outro, a teologia fraca propõe um caminho alternativo: não mais a verdade como posse, mas como busca; não a doutrina que separa, mas a misericórdia que une.

Nessa tensão profética, a teologia fraca se destaca por sua rejeição à linguagem técnica e à pretensão de totalidade. Ela não se limita a fórmulas, mas se abre à escuta; não constrói torres, mas estende a mão. Aproxima-se daqueles que duvidam, daqueles que caem, daqueles que se sentem alienados dentro e fora da Igreja. Em sua essência, a fraqueza não é ausência de sentido, mas o ventre de uma nova força, diferente da do mundo: a força suave que se torna serviço e partilha. Se a teologia realmente quer ser boa nova, deve falar uma linguagem compreensível, habitar palavras simples, tornar-se uma narrativa próxima das histórias daqueles que vivem à margem. A teologia fraca não se contenta em ser pensada: quer ser vivida, narrada e partilhada no dia a dia. Escolhe palavras que aquecem, que elevam, que não excluem ninguém da mesa da compreensão.

Uma teologia para os fracos não teme a contaminação pelas histórias e perguntas das ruas; ela escuta mais do que explica, acompanha mais do que julga. Nesse contexto, até a linguagem da fé se transforma: não mais escudo, mas ponte; não mais arma, mas carícia. É tempo de a teologia ser moldada pela experiência daqueles que vivem no limiar, pois só ali ela poderá reencontrar sua verdadeira voz e seu significado mais autêntico. É tempo de a teologia ser contaminada pelas fragilidades existenciais encontradas pelo caminho. Justamente por ser frágil, a teologia nascida da manjedoura permanece sempre aberta para acolher e abraçar as fraquezas humanas, os excluídos no momento, os refugiados que não encontram consolo e as famílias pobres e desamparadas em busca de um refúgio que não encontram.

A teologia frágil, nascida da manjedoura, da fuga, da exclusão, torna-se hoje uma profecia para uma Igreja que deseja ser um lar para todos, especialmente para os menos afortunados. É um chamado para romper as barreiras do medo, escolher o caminho da solidariedade, abraçar a complexidade sem se entrincheirar no dogmatismo. Somente uma Igreja que saiba ser frágil, que esteja disposta a aprender com a fragilidade, poderá ser verdadeiramente um sinal crível de esperança em nossos tempos conturbados.

O que resta, então, da noite em Belém? O que resta é a luz que surge das sombras, a confiança no encontro, a escolha radical de não deixar ninguém para trás. A teologia fraca nos convida a descer de nossas cátedras e ficar ao lado dos pobres, dos excluídos, dos esquecidos: é ali que o Mistério continua a sussurrar palavras de vida. E se a fé ainda tem algum significado, será o de se tornar carne em cada história ferida, porque somente na fraqueza floresce a esperança mais verdadeira.

 

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Uma teologia líquida

 




 

Análise crítica da teologia dogmática e proposta de um novo modo de pensamento teológico

 

 

Paolo Cugini

 

No panorama contemporâneo, a reflexão teológica encontra-se numa encruzilhada epistemológica crucial. Se a teologia dogmática pode ser definida como "sólida", isto é, fundada em princípios e sistemas estáveis ​​e muitas vezes imutáveis, o seu oposto natural é a "liquidez". Esta metáfora, emprestada do léxico das ciências sociais, sugere uma teologia capaz de se adaptar, fluir e renovar em relação às necessidades históricas, culturais e sociais do presente.

A solidez da teologia tradicional, embora assegure coerência e identidade doutrinal, muitas vezes gera rigidezes que dificultam o diálogo com as complexidades dos acontecimentos atuais. Essa rigidez epistêmica, de fato, torna difícil atender às novas demandas da sociedade, gerando desorientação e desconfiança nas possibilidades de reforma. Uma estrutura sólida, se incapaz de mudança, corre o risco de ruir diante de desafios que não consegue compreender ou resolver, a ponto de desaparecer gradualmente do horizonte cultural.

Nesse contexto, surge a necessidade de uma nova teologia, capaz de abordar os problemas à medida que surgem, sem se tornar rígida diante da diversidade ou da novidade. A teologia líquida, nessa perspectiva, não se limita a tolerar as diferenças, mas as acolhe como uma oportunidade de crescimento, escuta e diálogo. Ela encara a pluralidade de opiniões não como uma ameaça, mas como um estímulo construtivo que pode renovar a própria doutrina.

A teologia líquida distingue-se, portanto, pela sua capacidade de dar e receber, de acolher as contribuições de outras teologias sem receio de contaminação. Desta forma, incorpora um modelo eclesial mais inclusivo e misericordioso, em nítido contraste com a rigidez doutrinal que, ao longo dos séculos, por vezes semeou violência e intransigência. As páginas sombrias da história, da "santa" Inquisição à caça às bruxas, testemunham como a teologia rígida, aliada ao poder político, impôs à força uma fé uniforme, obliterando a diversidade e a liberdade de consciência.

Em conclusão, a teologia líquida oferece um paradigma alternativo, capaz de superar as rigidezes do passado e promover um pensamento teológico mais aberto e dialógico, atento aos desafios do presente. Somente por meio dessa transformação epistemológica será possível restaurar a teologia à sua função original: como um espaço de pesquisa, debate e experiência espiritual autêntica.

 

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

A LIBERDADE DAS MULHERES

 




O dia em que as mulheres deixaram a igreja: para sempre

 

Paolo Cugini

 

 

E chegou o dia. Havia um burburinho no ar, acompanhado de risos cúmplices. Uma correria silenciosa, mas alegre. Tinham combinado tudo em segredo, como nos velhos tempos de escola. Mas agora já eram mulheres crescidas e, justamente por isso, decidiram que naquele dia iriam embora para outro lugar. Tinham tomado a decisão de sair da igreja para sempre: sem regresso. Os últimos acontecimentos convenceram-nas de vez que ali não havia lugar para elas. Talvez, afinal, aquelas recusas constantes fizessem parte de uma voz do Mistério que orientava a história, o universo, a seguir por outros caminhos. O universo é imenso, então por que insistir em permanecer num lugar que, dia após dia, se revela hostil?

Esse era o pensamento das amigas que, cheias de alegria, naquele dia decidiram percorrer todas as ruas da vila para chamar todas as mulheres que encontravam e anunciar-lhes a grande novidade: o Mistério chama-nos a todas para ir além. Séculos e séculos a receber apenas recusas, incompreensões, ordens de silêncio. E depois, não se lembram de quando se divertiam a queimar-nos, a chamar-nos bruxas! E por que, então, haveríamos de ficar num sítio assim, que não nos quer, que nos trata mal? Vamos embora todas, gritavam, e dançando e cantando alegremente passavam de porta em porta. “Vamos, meninas! Somos livres! Não nos deixemos mais aprisionar pelos seus discursos mesquinhos.”

Foi assim que, a partir daquele dia, as igrejas ficaram sem nenhuma mulher: partiram todas. E nesse dia, ficou escrito nos céus e gravado nos sussurros do vento: “Serão tempos novos,” proclamava o silêncio das naves vazias, “pois as mulheres, filhas da terra e da coragem, ouviram o segredo pulsar do Mistério.” Assim, como ondas que abandonam a praia após longos séculos de tempestade, afastaram-se dos lugares que nunca as tinham amado, levando consigo a antiga chama da liberdade. E os sinos, que outrora chamavam para a reunião, permaneceram mudos a contemplar a revolução serena das almas em marcha.

Foi o fim de uma época e o nascer de outra, onde a voz das mulheres, finalmente liberta das correntes da invisibilidade, ecoou pelas vielas, nas praças, sob o céu infinito: “Não haverá mais prisão que nos possa deter, nem palavra que nos faça calar. De hoje em diante, a vida escreve-se noutro lugar.” E ainda hoje, quem escuta com o coração aberto pode ouvi-las, dançando leves na fronteira entre o velho e o novo mundo, anunciando que onde a liberdade chama, nenhum coração ficará acorrentado.

 

 

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Redescobrir o Mistério para além da ortodoxia

 




Paolo Cugini

 

 

No silêncio que precede toda grande virada, ergue-se uma voz que convida a desviar do caminho já trilhado. É a voz dos profetas, aqueles que escolhem ir contra, atravessar a teologia pelo outro lado da ortodoxia. Seu caminho é solitário, frequentemente criticado, mas necessário: só quem ousa desafiar o senso comum pode descobrir o rosto oculto da verdade, escondido justamente onde ninguém ousa olhar.

A profecia, neste contexto, não é apenas antecipação do futuro, mas também ruptura com o passado. Quem insiste em identificar a vida com a norma, com o que já foi dito e feito, condena-se a uma esterilidade espiritual, incapaz de captar a embriaguez do verdadeiro. A verdade não se encontra onde todos apontam, mas no caminho inverso, na direção oposta, lá onde a sede de vida, de justiça e de amor impulsiona a buscar o novo sob as cinzas do antigo.

Assim, a teologia “na contramão” torna-se desejo de autenticidade, reconhecimento de que o Mistério não se deixa aprisionar em fórmulas herdadas, mas se esconde aos olhos de quem se julga guardião do passado. É aqui que brota a água viva, não da memória fossilizada, mas do presente que inquieta e renova, como o vento que sacode os galhos e convida a sair da segurança dos hábitos.

Ir contra, então, é um ato profético: exige coragem e espírito crítico e, sobretudo, a capacidade de se deixar interrogar pelo desconhecido, pelo lado da história que ainda não tem nome. Só quem abraça a incerteza descobre que a fé é caminho, nunca posse; o amor é risco, nunca simples adesão; a justiça é sede, nunca prêmio. Nessa tensão vive a verdadeira teologia: não no controle, mas no abandono confiante ao Mistério que se revela apenas a quem ousa ir contra.

A própria fé não nasce da segurança, mas daquele passo incerto que leva para fora do rebanho. A história da espiritualidade é atravessada por mulheres e homens que souberam escutar a voz interior contrária, escolher o caminho menos trilhado e, por isso, geraram novidade. Hoje, mais do que nunca, em tempos de crise e transformação, voltar a profetizar a partir da teologia do outro lado é um gesto de responsabilidade e esperança, um convite a deixar-se surpreender pelo Mistério que nos precede e acompanha, para além de qualquer cerca de doutrina.