sexta-feira, 6 de março de 2026

CHARLES PÉGUY: SÃO OS PADRES A CAUSA DA DESCRISTIANIZAÇÃO

 




Paolo Cugini

 

Tudo o que Péguy tem a denunciar em relação à Igreja Católica concentra-se na figura dos padres, por vezes chamados de curés, ou clergé, ou simplesmente prêtres. É em Vèronique Dialogue de l’histoire et de l’ame charnelle que encontramos tematizados todos os argumentos de uma acusação que frequentemente atinge tons de pura polêmica.

O padre caminha nos jardins da graça com uma brutalidade espantosa. Nesta terra nobre, nesta terra abençoada, nesta terra de graça [...] eles afundam o calcanhar, fazem torrões. Dir-se-á que estão empenhados nisso. São os operários da hora em que se trabalha mal. Dir-se-á que eles se propõem unicamente a sabotar os jardins eternos. Que eles não têm senão uma preocupação no tempo: a de impedir alguma floração, a floração da santidade, a frutificação dos frutos da santidade. Que eles não têm senão este objetivo na vida, estes rapazes [...] Não se deve dizer que é danoso, deve-se dizer que é espantoso. E quando se pensa que realizam isso desde o início do mundo [...] De uma brutalidade, de uma indiscrição terrível, também e sobretudo para com a graça e (naturalmente com esta) falam sempre de discrição; arrastam sempre os seus pés barrentos (não digo terrenos, não digo terrestres), são como pés de elefantes moles nos jardins do Senhor. Assim, os curas trabalham na demolição do pouco que resta.

Há nos padres uma espécie de cegueira que os leva a crer que Deus trabalha apenas para eles, esquecendo que a situação correta está exatamente nos antípodas: são os padres que devem trabalhar para Deus. Mas eles dirigem aos outros aquilo que, por vocação, é tarefa deles: convidam outros a realizar atos de contrição, enquanto eles próprios não os realizam. Não se pode senão sufocar e dizer: é terrível. E o que há de mais terrível – sustenta Péguy – é que fazem isso desde o início do mundo. Tudo isso serve para introduzir o verdadeiro problema que toca o coração de Péguy, a saber, a descristianização do mundo moderno que é, essencialmente, segundo ele, um problema histórico.

A eternidade abortou no tempo (para aquele tempo); o eterno foi temporariamente suspenso porque os encarregados do poder, os procuradores do poder do eterno, desconheceram, ignoraram, esqueceram, desprezaram o temporal.

A expulsão do eterno do temporal tem a sua manifestação concreta na distinção entre século (mundo laico) e regra (clero). A regra não conseguiu salvar o século porque historicamente ignorou o século. Péguy, neste ponto do discurso, faz notar como na origem as coisas não eram assim. Se, de fato, está fora de dúvida que na origem do cristianismo está Jesus, então deve-se sublinhar que Jesus não era nem secular nem regular. Outra precisão importante é que, sempre na origem:

O século era incontestavelmente o objeto e a regra era a matéria de onde vinha o nutrimento. Originariamente, primitivamente, a vida mística, a operação cristã voltava-se para, consistia não em evitar o mundo, mas em salvar o mundo; não em fugir do século, separar-se, entrincheirar-se, subtrair-se, cortar-se do século, mas, pelo contrário, consistia em nutrir misticamente o século.

Esta separação entre momento místico e momento prático, entre regular e secular, não foi uma simples separação conceitual, mas sobretudo uma dissociação que conduziu historicamente a uma separação de poderes, uma distribuição de funções e uma divisão de trabalho. A união histórica e fundamental entre mística e mundo, entre regra e século, uma vez separada, produziu uma série inumerável de contradições e ambiguidades. A primeira delas é a distinção entre leigo e padre, chegando-se a indicar a vocação do pai de família como a menos empenhada, a menos aventurosa. Na realidade:

É diametralmente o contrário. A vida de família está na outra extremidade da vida da regra. Nenhum homem no mundo está tão empenhado no mundo, na história e no destino do mundo como o homem de família, como o pai de família, tão plenamente, tão carnalmente [...] acredita-se comumente que é o celibatário, o homem sem família, que é um homem de companhia, um aventureiro que corre aventuras. É o pai de família, ao contrário, o homem de família, que é um aventureiro, que corre não apenas aventuras, mas uma só, mas uma grande, mas uma imensa, mas uma total aventura, a aventura mais terrível, mais continuadamente trágica, da qual a própria vida é uma aventura, o próprio tecido da vida, o pão cotidiano. Eis o aventureiro, o verdadeiro, real aventureiro. O pai de família sozinho coloca, joga, arrisca, empenha infinitamente mais no destino do mundo, no século, no destino de todo um povo, no futuro de uma raça. É notório, é considerável, que esta vida de família, tão desacreditada, tão desprezada é considerável que seja esta vida de família, tão mergulhada por todos os lados, empenhada no século, que Jesus tenha escolhido, que a tenha eleito entre todas para vivê-la, que a tenha efetivamente, que a tenha realmente, que a tenha historicamente vivido durante os primeiros trinta anos da sua existência (terrestre).

Deus entrou no mundo através da vida familiar: é uma escolha que deve ser aceita. Escolheu a vida de família porque, aos olhos de Péguy, é a mais comprometida que pode haver no século. Aqui reside o sentido da encarnação de Deus que desceu para salvar o homem, para revelar o sentido do seu caminho. É a este nível que deve ser compreendida a mística e a mecânica da mística que deu origem ao cristianismo.

Nesta linha de reflexão, Péguy observa que, se é verdade que os outros três anos, os últimos três anos da vida de Jesus, tiveram um caráter público, é igualmente verdade que não foram na direção da regra, mas do século. Os primeiros três anos da Igreja foram, portanto, anos seculares, “secularmente místicos, historicamente místicos, voltados para o século e para a história”. A mística de Jesus não é a mística da regra, mas da carpintaria.

O erro histórico cometido pelos padres situa-se a este nível, que é simultaneamente histórico e místico. A separação entre regra e século, a incompreensão do mistério da encarnação de Deus que vem ao mundo para salvar o homem e o mundo, produziu dois tipos de padres: os padres leigos que negam o eterno do temporal e os padres eclesiásticos que negam o temporal do eterno. Para Péguy, ambos os tipos de padres, frutos maduros do mundo moderno, não podem ser considerados cristãos, pois traíram a mística originária do cristianismo. Assim, temos alguns padres que caem no mais baixo materialismo e outros que vivem no mais vago espiritualismo. A grande maioria dos padres pertence, segundo Péguy, à primeira categoria, ou seja, àqueles “atolados no século e nas tentações do século até à garganta e acima da cabeça”. Os mais perigosos, porém, são aqueles que negam a temporalidade, os puros: eis a mais grave, a mais infinitamente grave tentação das grandes almas. Os padres leigos e os padres clericais são a prova tangível de que a ruptura entre o eterno e o temporal foi sancionada. Não há mais o compromisso do temporal no eterno e do eterno no temporal.

Os padres não acreditam mais em nada. É a frase que Péguy afirma ser a fórmula corrente do seu tempo. Infelizmente, porém, não é uma simples fórmula, mas, salvo casos esporádicos, corresponde à realidade. Para que o padre volte a ser ministro de Deus, é preciso rezar por ele.
(Os padres) foram instituídos para rezar pelos pecados do mundo, é um fundamento, uma parte essencial, capital, da sua instituição; foram fundados para rezar pelos pecados do mundo, e hoje, por esta inversão, temos a impressão de que é o mundo que precisará rezar por eles.

 O texto completo do artigo (em italiano) se encontra aqui:

https://www.academia.edu/40075605/P%C3%89GUY_E_LA_SCRISTIANIZZAZIONE_DEL_MONDO_MODERNO

segunda-feira, 2 de março de 2026

Insights para uma teologia das margens

 



Páginas especiais - Instituto Humanitas Unisinos - IHUFine modulo

 

 

  Paolo Cugini

 

 

28 Fevereiro 2026

 

"A doutrina, por sua natureza, tende a formular normas e princípios gerais, muitas vezes baseados em abstrações e em um conhecimento parcial da complexidade humana. Consequentemente, pode parecer rígida e incapaz de acolher toda a riqueza e as nuances da experiência individual e coletiva."

O artigo é de Paolo Cugini, publicado por Viadanti, 25-02-2026. 

Paolo Cugini é professor de filosofia e teologia na Faculdade Católica da Amazônia e pároco de uma parèoquia de Manaus. Autor de "O nome de Deus não é mais Deus: dizer o Mistério em um mundo pós-cristão (Effatà, 2025).

Eis o artigo. 

Existe uma teologia que não busca o palco, que não se afana para obter reconhecimentos nem se apega ao rigor dos grandes sistemas doutrinários. É a teologia marginal, aquela que nasce na sombra, entre as trilhas poeirentas da história, onde a vida é medida pelo peso dos dias e pelo ruído surdo dos fracassos cotidianos.

Ensinamentos escondidos

Há muito o que aprender sob as pontes, entre as mãos trêmulas de quem não encontrou refúgio, entre os corpos cansados que buscam abrigo no vento da noite. Há ensinamentos escondidos na fome que morde a cada amanhecer, naqueles rostos que enfrentam o dia sem a certeza de uma refeição. Nestes lugares, a presença do Mistério revela-se potente, quase como se quisesse desmentir a presunção das grandes cátedras.

 

Sergio Omassi | Pexels

Há algo de prodigioso na vida dos pobres, uma sabedoria que não nasce dos livros, mas do contato direto com o sofrimento, a solidariedade e a resistência cotidiana. Se de fato, como narra o EvangelhoJesus quis se identificar com os últimos, é sinal de que o percurso autêntico em direção ao conhecimento do Mistério passa justamente por essa solidariedade com quem vive às margens.

Assim, a teologia marginal, embora permaneça nos confins, guarda um tesouro de verdade muitas vezes ignorado. Ela nos lembra que o verdadeiro conhecimento não se conquista do alto, mas se acolhe inclinando-se, abaixando-se, compartilhando o pão amargo da existência.

No fundo, o Mistério habita onde o coração se faz próximo, onde o homem se faz irmão, a mulher irmã, onde a pobreza se torna ventre de luz e a marginalidade se transforma em lugar de revelação. Tentemos dar alguns exemplos de teologia marginal.

A Tradição escrita na/pela vida cotidiana

Foi participando das celebrações da Palavra nas Comunidades de Base do Brasil que me dei conta do machismo exacerbado da Igreja Católica e da cultura patriarcal que, ainda hoje, dita suas escolhas. Tantas mulheres na América Latina não apenas presidem as celebrações dominicais, mas guiam pastoralmente as comunidades, no cuidado com os pequenos, na atenção zelosa aos tantos pobres encontrados. São justamente elas, as mulheres, as grandes protagonistas dos conselhos pastorais e do caminho cotidiano da Igreja. É ouvindo a voz e a vivência dessas mulheres que a estrutura doutrinária da eclesiologia pensada no centro do Ocidente se derrete como neve ao sol.

Acompanhando a ação pastoral dessas mulheres, as conclusões dos trabalhos da Comissão para o Estudo do Diaconato Feminino parecem sem sentido, pois não levam em conta a vivência cotidiana das comunidades eclesiais e o princípio da Encarnação. A teologia marginal, de fato, ensina que não podemos considerar "Tradição" apenas aquela que foi formulada ao longo dos séculos pelos documentos oficiais do Magistério, mas também aquela que é escrita todos os dias nas páginas da vida cotidiana das comunidades.

É esta Tradição que é sistematicamente ignorada pelo Magistério Eclesial cada vez que formula seus documentos oficiais, e é precisamente esta Tradição viva que a teologia das margens pretende recuperar.

O princípio da Encarnação

É possível desmantelar o patriarcado, que tantos danos causa às mulheres e à sociedade, propondo escolhas que levem em conta as mulheres reais, suas vivências dentro e fora da Igreja. É hora de parar de se esconder atrás de uma Tradição — ela mesma estruturada na cultura patriarcal — para justificar escolhas que vão sempre na mesma direção do poder masculino e autorreferencial.

Uma Igreja que pretenda ser profética na atual conjuntura histórica precisa colocar-se à escuta do grito das mulheres que há séculos imploram a misericórdia de Jesus. É justamente esse grito que a teologia das margens está recolhendo e ouvindo para elaborar uma narrativa teológica sensível ao princípio da Encarnação.

O mesmo discurso vale para as pessoas homossexuais e a comunidade LGBTQ+. Nos anos em que acompanhei um grupo de cristãos LGBTQ+, nunca constatei qualquer tipo de desordem moral entre os casais homossexuais que frequentavam o grupo de oração. Encontrei, por outro lado, muita fé, amor zeloso, atenção e o desejo de um projeto de vida que pudesse dar sentido ao seu caminho.

Lendo no grupo o texto de alguns documentos oficiais da Igreja que falam deles, senti vergonha. Quantas vezes recolhi as lágrimas de alguns/as do grupo de cristãos LGBTQ+ que contavam como haviam sido tratados no confessional? Rejeitados, como se fossem leprosos. Como é possível não dar a absolvição a uma pessoa que, com humildade, implora o perdão de Jesus? Como a Igreja pode se definir, nos textos oficiais, como "mestra de humanidade", quando na prática cotidiana é de uma desumanidade absurda?

Um diálogo fundamental

teologia marginal, colocando-se à escuta das pessoas reais, recolhendo seus testemunhos e suas verdades, constrói um discurso teológico que leva em conta a revelação do Mistério que vem da terra, da vivência cotidiana, daquela realidade feita de carne e osso e não de papel e tinta. Manter o diálogo entre o Magistério eclesial oficial e aquela Tradição que nasce da vida cotidiana é fundamental para não correr o risco de escrever. Documentos que ferem as pessoas e as afastam da Igreja.

Uma teologia que surge de baixo, em escuta às minorias marginais, não pode senão tornar-se uma teologia do dissenso, que representa um âmbito de reflexão e de confronto que, embora se desenvolva dentro do panorama eclesial, carrega-se de uma valência profundamente humana e comunitária.

O dissenso, ao contrário do que se poderia pensar, não brota de um espírito de rebelião por si só, mas da percepção aguda de uma distância — como observamos, por vezes dolorosa — entre os princípios absolutos afirmados pela hierarquia e a concretude da vida cotidiana. Frequentemente são justamente aqueles que vivem na própria pele essa discrepância que dão voz ao dissenso, não para negar a fé, mas para permanecer fiéis a ela no contexto da sua realidade.

Um aguilhão crítico

doutrina, por sua natureza, tende a formular normas e princípios gerais, muitas vezes baseados em abstrações e em um conhecimento parcial da complexidade humana. Consequentemente, pode parecer rígida e incapaz de acolher toda a riqueza e as nuances da experiência individual e coletiva.

Nesse espaço de descolamento, o dissenso teológico encontra sua razão de ser e se torna porta-voz das demandas de quem não se reconhece em definições percebidas como muito abstratas, impessoais ou até nocivas para quem vive situações de marginalidade ou julgamento negativo.

O dissenso muitas vezes se manifesta de modo silencioso, quase submerso: muitas pessoas, em seu cotidiano, escolhem caminhos pessoais que divergem das prescrições doutrinárias, às vezes sem sequer ter consciência disso.

Isso levanta uma questão fundamental: para que serve a doutrina, se não para guiar e sustentar o caminho de fé das pessoas? A doutrina, de fato, deveria ser um instrumento a serviço da vida, não um fardo insuportável. Nesta perspectiva, o dissenso configura-se como um aguilhão crítico, um elemento indispensável para evitar que a fé se reduza a um conjunto de regras abstratas.

 

Fonte: https://ihu.unisinos.br/662838-insights-para-uma-teologia-das-margens-artigo-de-paolo-cugini

 

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

O PENSAMENTO MITICO AINDA ESTÁ DENTRO DE NÓS

 




Paolo Cugini

 

Apesar de ter passado muito século desde que os gregos desenvolveram um pensamento filosófico, alicerçado na razão e sustentado pelo logos, é possível afirmar que temos ainda uma abordagem á realidade de tipo mítico. Parece uma afirmação absurda, mas tão absurda não é.

Mas a final de conta é o que um pensamento mítico? Pensamos de forma mítica todas as vezes que recorremos para uma narração que abandona o raciocínio para se apoiar numa fundação do discurso de tipo sagrado.

É bom também salientar que na mentalidade antiga o mito não se identifica com algo de falso. O filosofo da religião Mircea Eliade refletiu muito sobre a estrutura mítica do pensamento antigo e chegou á conclusões que vale a pena salientar. Diferente da visão moderna de "mito" como algo falso, Eliade argumenta que, para o homem das sociedades tradicionais (ou "arcaicas"), o mito é absolutamente verdadeiro e sagrado. Na narrativa de origem, o mito sempre se refere a uma "criação", contando como algo, seja o cosmos inteiro ou apenas um comportamento humano, que veio à existência. Para Eliade, conhecer o mito de origem de um objeto ou animal concede ao indivíduo um tipo de domínio sobre ele, permitindo sua manipulação ritual.

Um dos conceitos mais famosos de Eliade é o do Eterno Retorno, que descreve o desejo do homem religioso de retornar ao tempo das origens.  Através dos ritos, o homem não apenas "relembra" o mito, mas o reatualiza, tornando-se contemporâneo dos deuses ou heróis no "tempo primordial".  Ao viver o mito, o indivíduo sai do tempo linear (profano) e entra no tempo circular (sagrado), recuperando a plenitude do ser. Eliade utiliza o termo hierofania para descrever o ato de manifestação do sagrado no mundo profano. Para Eliade, o sagrado é a "realidade por excelência", saturada de ser e poder.  Mesmo em sociedades dessacralizadas e modernas, Eliade nota que o mito sobrevive de forma camuflada em comportamentos como o cinema, a literatura e certas ideologias políticas, que oferecem escapes temporários da história linear. Se na época do nascimento da filosofia o pensamento mítico tinha uma base heurística, hoje podemos dizer claramente que, recorrer ao mito é uma forma de preguiça mental, que manifesta a falta de conhecimento da realidade.

Para Paul Ricoeur, o mito não é uma explicação científica falsa, mas uma narrativa simbólica que revela verdades profundas sobre a condição humana, especialmente sobre a falibilidade e a origem do mal. Ele defende que a filosofia deve realizar um desvio pela hermenêutica (interpretação) dos mitos para compreender o que a reflexão pura e abstrata não consegue captar sozinha. 

Ricoeur define o mito como um "símbolo desenvolvido em forma de narrativa". Enquanto o símbolo é uma unidade de sentido duplo (um sentido literal que aponta para um sentido latente), o mito coloca esses símbolos em movimento através de uma história.  Ao perder sua pretensão de explicação física do mundo, o mito ganha uma função de exploração da realidade humana, manifestando o que Ricoeur chama de "linguagem da confissão" (experiências de culpa, mancha e pecado). O filósofo argumenta que não temos acesso direto ao "eu" ou ao ser; precisamos da mediação das obras da cultura, como os mitos, para nos compreendermos.

Levando em conta as reflexões de Eliade e Ricoeur podemos afirmar que o pensamento mítico ainda paira na cultura não somente Ocidental. Além do mais, o pensamento que de desenvolve no cristianismo não é de tipo mítico, mas filosófico. Não é um caso que os Padres da Igreja dos primeiros séculos, para tentar de resolver os problemas que a identidade de Jesus trouxe na reflexão cotidiana das primeiras comunidades, utilizaram muitos conceitos da filosofia grega. O seguimento a Jesus exige uma escolha racional, logica, mais de que mítica. Não é um caso que a primeira comunidade de João identifica Jesus não com o mito, mas sim com o logos. “No princípio era o logos” (Jo 1,1).

Jesus deu uma resposta racional definitiva aos nossos questionamentos humanos. Apesar disso, ainda hoje, a maioria dos católicos entram na esfera religiosa não levados para o raciocino, mas sim para o sentimento; não através de uma reflexão de cunho racional e filosófica, mas sim através de um pensamento mítico, não no sentido que Eliade e Ricoeur apontavam, mas como abordagem irracional, trazendo por dento do debate atuías argumentações insustentáveis. Quando o pensamento mítico se identifica com a nossa parte irracional, a religião se torna o espaço da intolerância, pois não se adere mais ao divino por um caminho que envolve a totalidade da pessoa, mas se adere á uma forma religiosa se identificando com ela e defendendo-a com os dentes e não participando com amor e ternura. Quando a religião se torna espaço da intolerância, da contraposição com a ciência,Deus some do mapa e entram em jogos elementos que somente a psiquiatria pode resolver.

sábado, 21 de fevereiro de 2026

ESPINOSA: A BÍBLIA UM PRODUTO HUMANO E HISTÓRICO


 



Paolo Cugini


Segundo Espinosa a superstição religiosa presente na igreja do seu tempo, era imbuída de preconceitos provocados pelo desprezo da luz da razão por parte dos fiéis, que liam as Escrituras Sagradas ao pé da letra e: “supõem desde o princípio a divina verdade do seu texto integral” (Espinosa, 1954, p. 612).  Espinosa defende a liberdade de crença, de pensamento e de expressão e, por isso, no prefacio ao Tratado teológico-político chega a afirmar que: “a liberdade de filosofar não ameaça nenhuma piedade verdadeira, nem a paz no seio da comunidade pública. Sua supressão, pelo contrário, desencadeia a ruína tanto da paz quanto da piedade”. O mesmo discurso não vale pelas monarquias, culpadas, segundo Espinosa, de enganar os homens, utilizando o medo do inferno para sujeitar os povos em nome da religião. Espinosa espera “desmascarar as engrenagens profundas da pseudo-religião fundada sobre a superstição e desvelar assim os vestígios de uma antiga servidão da alma”. É a partir desta tomada de consciência que Espinosa se propõe a ler a Escrituras com a ajuda da razão, para melhor compreender o contexto histórico no qual esses textos foram escritos, assim como as intenções dos autores.

A principal tese de Espinoza é que a Bíblia não é a palavra inerrante de um Deus transcendente, mas sim um produto humano e histórico, sujeito a erros e falhas. “Toda revelação divina passa primeiro pelas luzes naturais da mente” (Espinosa, 2013, p. 98). Espinosa trata os textos bíblicos como qualquer outro documento antigo, utilizando métodos de exegese que seriam revolucionários para a época.  Spinoza questiona a autoria do Pentateuco por Moisés, observando que o texto fala de Moisés na terceira pessoa e inclui o relato de sua morte. Ele aponta para o comentarista judeu do século XII, Ibn Ezra, que já havia levantado dúvidas sobre a autoria, mas de forma alusiva. Espinoza conclui, de forma mais direta, que o Pentateuco foi escrito por alguém que viveu muito depois de Moisés. 

Ele chega a sugerir o sacerdote Esdras como possível editor, uma ideia que antecipou as hipóteses documentais da crítica bíblica posterior. A hermenêutica de Espinoza estabelece uma separação clara entre a razão filosófica e a teologia. Para ele, a filosofia busca a verdade através da razão e da observação da natureza, enquanto a teologia tem como objetivo principal a obediência e a piedade. O conteúdo da Bíblia deve ser entendido em seus próprios termos, e não reinterpretado para se encaixar em conceitos filosóficos. "A Escritura não se destina a nos ensinar verdades filosóficas abstratas" (Espinosa, 2013, p. 46). O seu propósito é moral, direcionado à conduta. A análise de Espinoza não se detém apenas na autoria dos textos. Ele estende sua crítica a elementos centrais da fé judaico-cristã, como milagres e profecias.  De fato, Espinoza nega a possibilidade de que milagres violem as leis fixas e imutáveis da natureza. Ele argumenta que, o que as pessoas chamam de milagres são, na verdade, eventos naturais cuja causa é desconhecida ou mal compreendida pelos autores bíblicos, que careciam de conhecimento científico. Em vez de inspirar fé, a crença em milagres mina a fé, pois sugeriria um Deus que age de forma arbitrária e não consistente. A mesma critica Espinosa a moveu para as profecias dos profetas que, segundo ele, não possuíam um intelecto superior ou filosófico. A profecia era, em vez disso, um tipo de conhecimento imaginativo, adaptado à capacidade de compreensão e às crenças culturais dos profetas e do povo a quem eles se dirigiam. 

Como a profecia é baseada na imaginação e não na razão, sua autoridade se restringe ao âmbito moral, não podendo se sobrepor à verdade filosófica. O cerne do projeto hermenêutico de Espinoza não é apenas criticar a religião, mas também defender a liberdade de pensamento e a tolerância religiosa. Ao delimitar o escopo da Bíblia a questões morais e de obediência, Espinoza abriu espaço para que a filosofia pudesse investigar a natureza e a verdade sem ser censurada por autoridades religiosas. A partir dessa leitura, Espinoza defende que o verdadeiro ensinamento da Escritura é um simples imperativo moral: amar a Deus e ao próximo. As disputas teológicas sobre dogmas metafísicos são irrelevantes para a verdadeira piedade e não devem ser motivo para perseguição ou controle do pensamento. Sabemos que, por causa destas posições, Espinosa foi perseguido sobretudo do mundo religioso hebraico .

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

ADORAÇÃO EUCARISTICA - Documentos

 



 

 

Os principais documentos oficiais da Igreja Católica que fundamentam a adoração eucarística (também conhecida como culto ao Santíssimo Sacramento fora da Missa) incluem encíclicas, instruções litúrgicas e o Catecismo.

 

1. Documentos do Magistério Pontifício

  • Mysterium Fidei (1965): Encíclica de Paulo VI que reafirma a doutrina da presença real e incentiva o culto de adoração ao Santíssimo.
  • Ecclesia de Eucharistia (2003): Encíclica de João Paulo II que destaca a relação entre a Igreja e a Eucaristia, dedicando um capítulo especial ao "decoro da celebração" e à adoração.
  • Sacramentum Caritatis (2007): Exortação Apostólica de Bento XVI que descreve a adoração eucarística como o prolongamento natural da celebração da Missa. 

2. Instruções e Rituais Litúrgicos

3. Fontes de Doutrina e Direito

  • Catecismo da Igreja Católica (CIC): Nos parágrafos 1373 a 1381, trata da presença de Cristo pela força de Sua Palavra e do Espírito, além do culto devido à Eucaristia.
  • Código de Direito Canônico: Os cânones 934 a 944 estabelecem as normas legais para a reserva e exposição da Eucaristia

 

LITURGIA - Documentos da Igreja Católica

 



 

Os documentos oficiais da Igreja Católica sobre a liturgia dividem-se entre constituições conciliaresinstruções e os próprios livros litúrgicos (que contêm as normas práticas).

 

1. Documentos do Concílio Vaticano II

  • Sacrosanctum Concilium: A Constituição sobre a Sagrada Liturgia é o documento fundamental. Ela define a liturgia como o "cume e a fonte" da vida da Igreja e estabeleceu as bases para a reforma litúrgica moderna. 

2. Instruções e Documentos Pontifícios

  • Instrução Geral do Missal Romano (IGMR): Contém todas as normas sobre como celebrar a Missa, desde a disposição do altar até os gestos dos fiéis.
  • Redemptionis Sacramentum: Trata sobre o que deve ser observado e evitado em relação à Santíssima Eucaristia, combatendo abusos litúrgicos.
  • Desiderio Desideravi: Carta Apostólica do Papa Francisco (2022) sobre a formação litúrgica do povo de Deus.
  • Ecclesia de Eucharistia: Encíclica de João Paulo II sobre a relação entre a Igreja e a Eucaristia. 

3. Livros Litúrgicos (Contêm o Rito e as Rubricas) 

Estes são os livros usados diretamente nas celebrações e que possuem força de lei: 

  • Missal Romano: Para a celebração da Missa.
  • Lecionários: Contêm as leituras da Sagrada Escritura (Dominical, Ferial e Santoral).
  • Liturgia das Horas: A oração pública e cotidiana da Igreja (Breviário).
  • Pontifical e Rituais: Livros para a celebração dos sacramentos (Batismo, Crisma, Matrimônio, etc.) e bênçãos.

 

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

O Negacionismo como instrumento de poder político e a estratégia da mentira na extrema direita

 




Paolo Cugini

 

Introdução

O negacionismo é um instrumento político que serve para manter o poder. Negar a realidade, sobretudo aquela realidade que provocaria uma mudança das atitudes políticas adotadas por um determinado poder, é uma necessidade intrínseca aos poderes totalitários, que tendem a impor a própria visão do mundo. Este é a entidade do problema. Os partidos políticos de extrema direita que, por própria essência são conservadores, tendem a se instalar no poder para impor uma visão do mundo, uma maneira de pensar a realidade. Tudo aquilo que pode interferir a mudar esta visão torna-se um obstáculo que deve ser superado. Nessa altura o negacionismo ´um instrumento de persuasão das massas, porque tem como objetivo manter a própria visão do mundo declarando tudo aquilo que pode atrapalhar como falso. A mentira é outro aspecto fundamental dos sistemas de extrema direita.

negacionismo contemporâneo, particularmente evidente em movimentos de extrema direita, transcende a mera ignorância ou ceticismo. Trata-se de uma estratégia política deliberada para consolidar e manter o poder, impondo uma visão de mundo monolítica e combatendo realidades que desafiam essa narrativa. A negação da realidade factual, aliada ao uso sistemático da mentira, torna-se um pilar fundamental desses regimes e movimentos.

A Negação da realidade como tática de controle

A necessidade de negar fatos concretos surge quando a realidade ameaça as atitudes políticas adotadas por um determinado poder. Como observa a filósofa política Hannah Arendt, em seu ensaio "Verdade e Política", regimes totalitários demonstram um profundo desprezo pelos fatos objetivos. Para Arendt, "o sujeito ideal do domínio totalitário não é o nazista convicto ou o comunista convicto, mas pessoas para quem a distinção entre fato e ficção (isto é, a realidade da experiência) e a distinção entre verdadeiro e falso (isto é, os padrões de pensamento) não mais existem" (Arendt, Entre o Passado e o Futuro).

A imposição de uma "visão do mundo" (Weltanschauung) exige que tudo o que possa interferir ou mudar essa visão seja declarado falso. O sociólogo e filósofo Jürgen Habermas argumenta que a comunicação política deve se basear em pressupostos de veracidade e racionalidade. O negacionismo, ao subverter esses pressupostos, corrompe o próprio espaço público democrático.

O Negacionismo como persuasão das massas e a instrumentalização da mentira

O negacionismo serve como um instrumento de persuasão das massas, visando manter a coesão em torno da ideologia dominante. A negação de consensos científicos (como as mudanças climáticas ou a eficácia das vacinas) ou de fatos históricos (como o Holocausto) não é um debate racional, mas um ataque à autoridade do conhecimento compartilhado.

A mentira é, nesse contexto, um aspecto fundamental dos sistemas de extrema direita. O historiador Robert Paxton, em Anatomia do Fascismo, descreve como os movimentos fascistas utilizavam a "banalização da mentira" e a manipulação da informação para criar uma realidade paralela que servisse aos seus propósitos.

O filósofo político Leo Strauss, discutindo a natureza da dissimulação política, sugeriu que a mentira pode ser usada para proteger a ordem social, mas nos regimes modernos e totalitários, ela é empregada para destruir a ordem social existente e impor uma nova.

Conclusão

O negacionismo, munido da mentira e da manipulação, é, portanto, uma ferramenta intrínseca aos poderes totalitários ou autoritários. Ele não busca o debate ou a verdade, mas sim a subjugação da realidade aos ditames ideológicos, visando a manutenção do poder a qualquer custo, como evidenciado na ascensão e operação de partidos políticos de extrema direita na contemporaneidade